Um site para quem tem acordes dissonantes

  • Track 131:42

Samba é coisa que requer malemolência, um amor para servir de inspiração, batuque bem feito, cerveja e emoção. E aí rola um ronco de cuíca daqui, uma batida de surdo dali, um pandeiro que se descortina a marcar e traduzir o exato e certo tom. Rebolado logo vai surgir, com certeza. Se tiver passista então, sai da frente que é para rolar a coisa até de madrugada. Daí, tenha à mão um copo para levantar, garganta para gastar, mãos a ensaiarem o ritmo de Brasil em qualquer lugar. Agora, imagine tudo isso na cabeça de um moleque diferente, desses que a música vem de berço e toma o mundo. Aquele que batucava, decerto, já nas fraldas, num tempo em que a boa música estava a fervilhar. Estrada sem volta, reviravolta de vida para sempre. E se samba no sangue há, chorinho com certeza depois haverá. Pois se assim pudéssemos prever o futuro, certamente nesse roteiro de filme em acordes e notas do personagem surgiria alguém com o nome de Chico Pandeiro. Aliás, como o roteiro diria, alguém que encaixou o instrumento como sobrenome e nesse se mimetizou. Hoje, após o fim de mais um Carnaval, no palco do Musica à Vista!, Chico Pandeiro pede passagem para mostrar aquele que, por muitos, é considerado o instrumento mais brasileiro que existe. E um adendo: que seja de preferência em pele de cabra esticada no aro de aço para deixar o samba ou o choro ainda mais fáceis de amar e viver.    

“A minha mãe, que morreu em 2016, aos 87 anos, tocou na Orquestra Sinfônica de Catanduva (SP). Ela era a violinista e tinha ainda uma pianista na orquestra. O restante era só homem. Quer dizer, ela estava à frente do seu tempo. Logo, eu já tinha uma veia musical em casa. Nós morávamos aqui em Campinas num sobrado na Rua Padre Vieira com Cônego Scipião. E lá na rua rolava um samba. Eu moleque, com 12 ou 13 anos, me interessei pelo som. Meu irmão também se interessou. Compramos violão, timba e pandeiro. Tinha um senhor que ensinou o meu irmão a tocar e eu assimilei a coisa. Acabei tocando do meu jeito. Quando eu tinha 15 anos o meu irmão tocava com o João Luiz, que era irmão do Alfredinho (músico de Campinas e que foi dono de uma casa noturna no fim da década de 80), e o Neco no surdo, que já faleceu. Só que depois de um tempo o meu irmão ficou cansado da madrugada e aí me chamaram para o lugar dele. E eu fui. Passavam em casa, me pegavam e ia para a noite tocar. Daí, logo depois, veio os grupos musicais Bons Tempos, por 27 anos, e o Choro Bandido, por mais 15. Pra mim, então, não parou mais até hoje. Costumo dizer que aprendi tudo o que eu sei na noite. Porém, hoje me considero um técnico. Não sou como um cara de sinfônica, que tem uma formação mais erudita, que seria o engenheiro. Mas toco com gerações diferentes, de samba e choro. É desde um pessoal novo da Unicamp até um pessoal da antiga. Logo, sou um bom técnico.”

​Encontramos Chico Pandeiro no Bar Pessoa do The Royal Palm Plaza. Ele tinha acabado de tocar com outros dois músicos durante uma tradicional feijoada do lugar. Lá é um dos pontos onde ele se apresenta. Tem muitos outros mais. Sempre com samba, chorinho ou MPB no repertório, sempre com um pandeiro debaixo do braço a acompanhar. No hotel, onde se apresenta há quase uma década, ele tem até armário próprio. Num dos lugares para mostrar que a boa música não morrerá nunca. Chico Pandeiro é bem isso: um operário daquilo que os ouvidos não podem deixar de ouvir, às graças dos deuses. Afinal, no resto, como bom brasileiro, a gente se vira.  

“A música não é a minha única fonte de renda. Tenho outra atividade, mas a música faz parte do meu orçamento e da minha vida. Muitas vezes você trabalha em outra coisa para manter aquilo que gosta. Tem muita gente que me pergunta se ser músico é difícil. Eu respondo que é. Mas ser jornalista não é difícil? Ser professor não é difícil? O mercado vai te ditar regras. O bom é que hoje a internet abriu um canal a mais. E nela nós músicos temos um espaço. Por que às vezes você faz um trabalho que vira como que um vinho raro, uma coisa especial e para poucos. Para mudar essa realidade, o que deveria ser feito é toda a casa ter ao menos um instrumento. No passado era comum ter um piano nas casas. Tem gente que vem estudar pandeiro comigo e pergunta em quanto tempo irá poder tocar. Mas aí eu digo que, mesmo que a pessoa nunca toque, que não chegue a ser profissional, aprenderá ao menos a captar algo da música e do instrumento. Você irá num show e verá tudo com outros olhos. Mas o bom é saber que a música nunca acabará. Sempre terá uma releitura de um ‘Carinhoso’ do Pixinguinha, de um ‘Trem das Onze’ do Adoniram. Das coisas que valem a pena e são eternas. E é claro que tem as coisas descartáveis, que são feitas pra isso mesmo. Mas tem também uma coisa que eu tento me livrar e acho que consegui: os preconceitos musicais. Tem obras logicamente que são maravilhosas, como as coisas do Chico, Tom, Noel. E tem outras feitas só para dançar ou ouvir, animar baile, servir de jingle. Mas o importante, no final de tudo, é deixar rolar. Nosso trabalho, como artista, é humanizar, levar um pouco de poesia ao mundo.”

Mas o certo é que nos tempos atuais, de jabás onde o medíocre vira top, o que é bom, parece, está aos poucos querendo minguar. Algo que virou meio restrito a raros ouvidos que não querem se deixar morrer. A produção comercial e fácil de vender, aquilo que é imposto à maioria das pessoas, seja em programas de rádio ou tevê que cobram pelos sucessos direto da fonte, assumiram o padrão global de ser. Diante dessa realidade quase imbecilizante, quem resiste em mostrar o que faz a música brasileira de qualidade um diferencial, vive que nem roda gigante – a subir para mostrar aquilo que devia ser o tom geral e descer para o mundo real da sobrevivência diária. 

“Toda a carreira tem seu perrengues e maus momentos, altos e baixos. Até o Charlie Parker teve de sair dos Estados Unidos para tocar na França porque no seu país ele não tinha espaço. E eu estou falando de um gênio da música mundial. Vejo gente que fala que tem um filho ou sobrinho que toca bem e acha que o mercado está difícil. Nesses casos, vejo que é como diz um amigo meu, o Nenê: ‘pega a senha!’. O moleque tem 23 anos e já quer chegar arrebentando... como entrar numa redação e virar editor? Até que por vezes acontece o milagre. Mas você tem que ter talento, estar na hora certa no lugar certo e conhecer as pessoas certas. Às vezes, porém, tem de engolir uns sapos que não está querendo. Sempre digo a quem acha que o mundo da música é fácil: monta uma banda e convive com ela para você ver o que é.”

“Lembro sempre de uma história de que numa turnê precisavam de um baixista para tocar com o Prince (mito do rock morto em 2016). E chamaram diversos músicos para uma seleção. Juntou um monte de moleque com seus baixos, ensaiando, esquentando num ginásio, e tinha uns outros dois concorrentes jogando basquete na quadra. O cara que fazia a seleção não pensou duas vezes: mandou todos embora e chamou só os dois para o teste, porque eles sabiam conviver e o Prince não precisava de virtuose para o show, mas quem tocasse legal. Afinal tudo Não há nenhum hotel, nenhum avião, na volta, em uma cidade nova, convivendo direto. Por isso, além, de saber dominar o seu instrumento, o essencial também é uma convivência. "

A JOVEM GUARDA GANHOU
Saudosismo ou não? Pode ser. Mas, para quem já passou dos 50 anos e conviveu com outros tempos de MPB, parece que houve um corte epistemológico no mundo musical. Para pior. Mas como tudo é questão de gosto, pode até ser que, a contragosto, o atual seja o bom e o que ficou para trás é apenas coisa de bondes, lotações e lampião de gás, sonoridade descrita numa qualidade que se acabou. Mas, se assim o foi, respeitem os ouvidos e corações das “vovós” e dos “vovôs”.  

“No passado tinha os programas ‘O Fino da Bossa’ e a ‘Jovem Guarda’. Hoje eu acho que sobrou só a Jovem Guarda, com todo o respeito a ela. Mas o que eu falo é da qualidade que cada programa tinha em si. Mas tem um lado diferente nesses tempos atuais. Vejo muita gente ligada ao choro que consegue, através da internet, acesso a partituras que antes não tinha. Ver gente tocando na tela do seu computador, conhecer movimentos e acordes. Na internet, tem canal de gente que dá dica. Por que é isso: quem gosta promove e divide o que sabe e tem a dar. Antes, no passado, tinha o cara que escondia partitura. Que não dividia. Agora você vê um cara bom de pandeiro mostrando a técnica. A minha parte pelo menos eu ainda tento fazer, que é tocar.”

“Mesmo do passado musical, do tempo que em Campinas tinha mil bares com o todo o tipo de música para se ouvir, acho que única coisa que sobrou foi o samba. Aqui, queira ou não, você está numa cidade ainda meio rural e do interior, que deu ao Brasil Chitãozinho e Xororó. Mas você passa também por um tempo de repressão cultural. Na televisão você tem divulgação do funk, sertanejo e pancadão. Assim, se o cara só ouve isso, com o que é que ele vai se identificar? Tudo bem que tem a internet com outras opções. Mas o cara que não sabe tem de descobrir que essas outras opções existem. É preciso mostrá-las, falar onde estão, fazer serem ouvidas”.

A verdade é que Campinas vive hoje um mundo menos melódico que no século passado. Coisas ainda vivas na alma de quem as conheceu, no pequeno e grandioso espaço do Centro de Convivência Cultural, no Cambuí, na Broadway local, mas que já viraram peças de museu. Quem viu e viveu, viveu e viu. Fez sobreviver como pontos de madrugadas, paixões e sonoridades. Contramão, Caicó, Natural, Paulistinha, Candeeiro, Alfredo’s, Itapuã, Água Furtada e Ilustrada, entre outros, viraram coisa de, no mínimo, quarentão da noite. Serão os dias de hoje o estertor da qualidade musical implícita?

“Campinas e bares noturnos com música ao vivo está difícil de rimar. Mas parte é culpa da situação geral, inclusive a financeira. Se, por exemplo, o restaurante está vazio, o que é a primeira coisa que o dono vai tirar? O músico. Em Barão Geraldo você ainda tem a efervescência da Unicamp, com os estudantes, pessoas que querem mudar, pessoas que têm nível superior, a resistir. Mas isso é 5% do Brasil, de gente que tem nível superior. Não existem sequer mais bares temáticos. O Nono, em Barão, ainda é um dos poucos que consegue se manter assim. Há 18 anos tem choro todas as segundas-feiras. Eu estou com 53 anos e me considero a rapa do tacho. Hoje não há renovação. Veja como exemplo o Bons Tempos (grupo que começou no início da década de 80 com cinco integrantes: Alfeu/cavaquinho e vocal, Caco/vocal solo e percussões, Chico/pandeiro, Elder/timba e vocal e Newton/violão de 7 cordas e vocal). Nós gravamos um disco inteiro do Ary Barroso e ficou um monte de coisa boa dele sem entrar. É certo que era outro tempo. Mas esse nosso disco foi como vinho bom na prateleira, para poucos. Ficou conosco”.

“Morávamos em Campinas na época do disco e do início do DVD. Teria sido o caso de termos mudado para o Rio? Mas quantas bandas boas já não existiam lá, com acesso às rádios e tevês? Seria arriscar muito, sair daqui. Ou então ir para São Paulo. Mas aí tem família e filho no meio, não tínhamos mais os bons 20 anos de idade, quando você arrisca tudo. Tinha o desgaste da convivência. Ou seja, tudo é que nem casamento: termina e você não sabe sequer porquê. Ou sabe. Acabou porque deu. Não dava para arriscar, por análise de mercado. Nosso trabalho não era um trabalho comercial, de tocar em qualquer lugar que depende de investimento. Era bom, obviamente. Mas o mercado dita regras. É como você estudar esperanto na Unicamp. E daí? Você vai dar aula aonde? Vai ficar dentro de uma Kombi cheia de livros dando voltas no quarteirão? Qual é a fórmula? A verdade é que eu não sei. Se soubesse a fórmula do sucesso, faria. É como neguinho que diz que aquilo que o Paulo Coelho faz é fácil. Então escreve igual e vende tanto! Quero ver se consegue. É como pegar uma loura bonita, investir nela R$ 10 milhões e querer fazer outra Xuxa. Não faz. Por que ela tinha carisma e teve o seu momento, até no mercado fonográfico, para criancinhas. Tem uma fórmula para dar certo. Isso é certo. Mas tem umas outras que eu não sei. Tem coisas com um algo a mais, que passa algo, que está além do hit. E isso é o que fica e não morre nunca.”

Mas pouco importa o que pode ter dado certo ou não naquilo que o mercado define como lucro e venda certa. O importante é que o samba e o choro sobrevivem e sobreviverão pelas mãos de quem os faz ser naquilo que a vida os criou, recriou e traz de arte de paixão. Como uma eternidade sem lugar, estrada, destino ou aquilo que seja a chegar ou terminar, com tesão e emoção. Afinal, o que vale é não deixar a chama apagar ou o sonho morrer. 

“De onde vem o samba? Olha, eu estou na umbanda há sete anos. E a umbanda é uma união de várias ‘bandas’. Tem um pouco do ameríndio, do catolicismo, do kardecismo e do candomblé. E este último tem três tambores – o grave, o médio e o agudo. Uma coisa que vem antes de Jesus Cristo. Daí, quando você vê uma escola de samba, por exemplo, nada mais vê do que um terreiro de umbanda andando na avenida. É tudo uma energia só. A levada do tamborim vem do candomblé. Pare um dia defronte de uma bateria de escola de samba e vai ver e descobrir toda essa energia. Samba é uma filosofia de vida. E temos tanta gente e tanta gente boa a fazê-lo ainda que dá esperança. Mas também tem muita coisa boa ainda a ser feita, tocada e cantada.”

“Na verdade, eu cansei de querer entender o mercado, de ver que há falta de lirismo, de poesia, enxergar o que está acontecendo agora. O importante é você fazer o seu. Mas eu não quero também virar um comunista revoltado e sisudo. Quero apenas fazer a minha parte. Senão você entra num parafuso se achar que tudo que está aí está ficando horrível. Daí vou fazendo o meu choro, o meu samba e vou tocando. Como num dia que chegamos no Nono para tocar e tinha um clarinetista reclamando da vida. Então o rapaz do cavaquinho disse: ‘você está miando que nem gato, velho. Está num bar que tem chope bom, vai tocar nesta noite só Choro, a banda está montada com tudo certo e é segunda-feira’. Quer dizer, não dá para ficar como gato no telhado – no bem bom e só reclamando. Tem coisas para reclamar, mas também tem coisas para se agradecer a cada dia. Tá ruim aqui? Então vai para a Síria! Porque sempre tem aquela coisa do meio do caminho: num dado momento ou você coloca o navio no meio do mar ou volta para o porto. Quem escolhe sempre perde. Não dá para ter os dois – o meio de mar e o porto. Então é seguir um caminho.”


REALIDADE E SONHO JUNTOS
Para o Chico Pandeiro, o mundo é esse meio interligado: entre a realidade que existe e o sonho que há. A beleza da música e a realidade do trabalho formal. A poesia e o lirismo que temos de pregar e plantar a cada dia e a semeadura do cotidiano que nos bate à porta nas contas do dia a dia. Um universo diverso e presto. Minutos ou segundos no tocar de pandeiro, naquilo que o homem um dia chamou de música e nirvana sonoro e de alma, e o que nos dá espaço para uma tentativa de sobrevivermos à realidade infinda – longe do que nos é a ilusão.
 

“Fiquei 15 anos com o Choro Bandido e produzi dois CDs. E isso é legal, porque vira o seu diploma sem universidade. Mostra o seu trabalho, onde você dá a cara para bater. Tem as pessoas que falam e aquelas que fazem. Eu fiz. E produzir é difícil, onde você vende a ideia, não um produto. É como alguém que chega perto de você e diz que você toca bem. Mas, e daí? Quem é que o cara que te falou já viu tocar? Toco bem em relação a quem? E é esse ‘tocar bem’ que o mercado quer? Foda-se. Quero saber o que eu ganho com isso. Tem músico que está fazendo doutorado e tem o cara que é só batuqueiro. E não estou dizendo qual que é o bom ou o ruim. Mas faculdade nunca foi garantia de emprego. Está certo que o cara que fez doutorado na Unicamp se um dia se encher da noite deixa ela e vai dar aula numa universidade de música. A faculdade vai te dar os caminhos, mas dependendo de onde você vai usar não vai valer de nada. Tudo depende da maneira que você vai fazer a coisa e cuidar do seu mundo.”

“Na verdade, quem está tocando hoje e está no mercado, você sabe quem é? É quem está se virando e achou um caminho. É como dizer que você bate pênalti bem. Bate? Então vai bater no Maracanã lotado em final de campeonato. Tem gente muito preocupada com status e rótulo, de que isso é isso ou aquilo. Mas não... tem música boa, música ruim, bem tocada ou mal tocada. O cara tem é de acreditar naquilo que ele faz. Por que a gente tem sempre uma zona de conforto, que não te cobra. Só que você sempre quer desafios, coisas novas. Mesmo tocando pandeiro. No fim, você tem de administrar sua vida e cuidar das contas do banco, mesmo sendo romântico. Tem de equilibrar as coisas na vida. A música me deu essa paixão e achar que o que faz falta na vida é o lirismo. Todo mundo tem de se virar. A cada dia ouvir um bem-vindo ao mundo!”

“Uma vez perguntaram para o Gabriel Jesus (jogador da seleção brasileira hoje no Manchester City da Inglaterra) se estava difícil e ele respondeu que antes jogava na várzea e agora estava do lado do Neymar, na seleção brasileira, num time grande e com chuteira feita sob medida para ele. Está difícil? Ou como perguntaram para o Amaral, que foi jogador do Palmeiras, se ele tinha medo de entrar em campo para jogar contra os argentinos. Ele respondeu que antes de ser jogador dava banho em defunto e enterrava os caras. Como teria medo de argentino vivo? Está, por exemplo, difícil pra mim? Sentar numa mesa para conversar sobre música. Tocar o que gosta. Tem cara que passa pela vida batido. Eu não. A vida é assim. Quando está bom, está bom. Mas sempre teremos problemas na vida, como perder um amor, ter uma doença, perder um emprego. Mas se você tem a arte, a poesia ou a música, elas vão amenizar tudo isso. Não vão tirar o problema, mas farão você entender e aceitar melhor as coisas. E se você aprende a sofrer, o resto fica fácil. Problema vai ter todo o dia. Como diz a filosofia: a flor e a delícia de ser o que é.” 

Para terminar o encontro com o Música à Vista!, Chico Pandeiro cantou uma música de Nelson Cavaquinho (http://dicionariompb.com.br/nelson-cavaquinho) – Rugas. Ao fundo da entrevista rolavam frases e versos do poeta Fernando Pessoa refletidas na parede do bar. Ao redor, pessoas tomavam uns drinques, discutiam negócios ou abobrinhas, o mundo girava igual e desigual feito do lado de fora. O que era bom continuava bom, o que era ruim teimava ainda em ser ruim. Dicotomia eterna desse nosso mundo passageiro, ligeiro, infindo e com fim marcado e certo. Porém, façamos da voz de Chico Pandeiro neste samba de um mangueirense o leme e o lema a se tomar e seguir. E como nosso entrevistado disse: “Bem-vindos ao mundo!” Abaixo, Rugas na voz de Nelson Cavaquinho.


 
Rugas (Nelson Cavaquinho)

Se eu for pensar muito na vida
Morro cedo amor
Meu peito é forte
Nele eu tenho acumulado tanta dor
As rugas fizeram residência no meu rosto
Não choro
Pra ninguém me ver sofrer de desgosto
Eu que sempre soube esconder a minha mágoa
Nunca ninguém me viu com os olhos rasos d’água
Finjo-me alegre
Pro meu pranto ninguém ver
Feliz aquele que sabe sofrer.

FOTOS: Ronaldo Faria e Acervo Pessoal do Chico Pandeiro

No pandeiro do Chico, o Chico do Pandeiro