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DESTAQUE DO DIA

Ao Francis Hime
03/07/2019


Muito a falar, a tentar dizer, conversar. A lembrar cenas já sem palco, plebeia ou plateia. Mas logo vem o silêncio ausente, cru, desprovido da nudez que só tempo traz e faz. A fatídica e morta saudade que não parece dizer uma sílaba sequer. Na incerteza de um parêntese que faz a interface do nada, a voz da amada que recrudesce a luz da lua que brilha teimosa ao acalanto sem pranto da flor desfolhada e formosa.

Muito a clamar no clarear que se perdeu infante no adeus primeiro da aurora. Na casa de saibro, o menino queima de febre em catapora. Na árvore que repousa quieta no alto do morro, cheiro de amora. Na igreja, gorjeio de corujas sonâmbulas a acordarem do sono sombrio. Lá fora uma raposa espera quieta a chegada das galinhas que foram ciscar e contar grãos de milho. Na venda, a voz perdida de Seu Virgílio.

Muito a fazer poemas, tenham eles ou não extintas e flutuantes tremas. Nas tramas da vida, tramoias de amantes apaixonados e surdos aos carros que teimam em passar sibilares bem abaixo do quarto do apartamento que se esconde sobre um jardim. Entre o talvez e a próxima vez, o voltar de mãos trêmulas a afagar cabelos molhados e torneados no corpo que virou copo para a sede e o coito do amor.

Pouco a descrer na descrença fatídica que se faz fátua e fábula de uma sessão de cinema nunca assistida. Na bilheteria, a vendedora, que se chama Dora, adora quando o senhor de bengala e chapéu chega para assistir pela décima quinta vez a mesma cena, que teima em terminar com The End. No projetor, entre fotogramas colados e miligramas de tinta retinta, passam vidas e destinos marcados e desatinos.

Pouco a dedilhar entre teclas que nada mais são do que asseclas de uma poesia de amor.  Dessa que recobre de panos e letras um sentimento de dor. Talvez, noutra certa vez, a alegoria se confunda com a orgia e vire somente rara alegria. Senão, entre um sim e outro não, ambos saiam a dançar pelas ruas que margeiam a cama forrada de sons e se faz altaneira na cidade. À morte plena, nasceu a frágil realidade.

Pouco, por fim, a profetizar aquilo que nunca será. Nas ondas que arrebentam frias na areia e arrebatam o olhar da musa primeira, a certeza de que sentimentos urgem e brotam feito pássaros que voam sem saber chegar. Ao final, afinal qualquer é lugar é lugar de derrear, um porto sem navios, naufrágios, belas morenas no cais, bebidas jorradas em canecas e adeuses que se prostram em lágrimas tais. Muito e pouco, pouco e muito, palavras fatais. 

  • Quadrilha3:14
  • Um carro de boi dourado4:05
  • Saudade de amar4:56
  • Maravilha3:37
  • Cora??o do Brasil3:15
  • Lindalva3:18
  • Promessas, promessas3:32
  • Mariposa3:22
  • Gr?o de milho3:07
  • O tempo da flor3:35
  • ? meia luz2:58
  • O rei de Ramos3:51
  • Pau-brasil3:01
  • Pivete3:07
  • Santa Tereza3:12
  • Se por?m fosse portanto1:42
  • Demoli??o3:07
  • Ode mar?tima2:59
  • A noite2:10
  • Saudade de amar3:39
  • Ieram?3:00
  • Tr?s Marias3:06
  • Desembolada2:06
  • Maria2:53
  • Joana3:10
  • O sim pelo n?o3:12
  • Terceiro amor2:33