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Quando violas se juntam para virar uma filarmônica

FOTOS: Ronaldo Faria e Acervo Pessoal da Orquestra Filarmônica de Violas 

De caipira ou sertanejo todos temos um pouco, mesmo aqueles urbanoides plenos que nunca deixaram o concreto das metrópoles para pisar na grama molhada com cheiro de orvalho e ver o dia que cai por detrás da porteira, com o gado a mugir distante o sono do rebanho que se ouve do alpendre. Afinal, já dizia o poeta que o Brasil é caboclo de mãe preta e pai João. Coberto de natureza e lendas, entre o passado de colônia e colonizado, essencialmente rural nos seus primórdios, o país já teve no Jeca Tatu de Monteiro Lobato parte de sua alma, no Jeca Tatu de Mazzaropi sucesso de bilheteria e nos tantos jecas tatus perdidos em trilhas e canções a sua voz mais completa. E essa alma brasileira, se tem som além de um baticum do coração, creiam que é o ponteio de uma viola.


Instrumento que aportou nas terras daqui com colonos portugueses, a viola logo se tornou caipira ou sertaneja e virou coisa mais do que nacional, com caboclos a criarem suas próprias “caixas de som e cordas” nas madeiras da terra. Depois ela colou no peito para rir das alegrias e chorar das melancolias, dedilhar saudades e chegadas, histórias mil. Assim, seguiu por séculos e resolveu parar, de repente, em 2001, em Campinas, no sonho e realidade de um violeiro de fé, arranjador, professor universitário e pesquisador – Ivan Vilela (http://dicionariompb.com.br/ivan-vilela). A partir dele a criada Orquestra Filarmônica de Violas se lançou em arranjos orquestrados para um grupo instrumental formado só por violas caipiras. E vingou. E ficou.


Em 2011, porém, mudou de direção. E nessa nova etapa assumiu o músico, arranjador, professor e primeiro aluno no País a apresentar, na Unicamp, um mestrado em Música sobre a viola caipira – João Paulo Amaral, integrante do grupo desde o surgimento. É ele e Wilson Lima, jornalista e violeiro, outro que vem desde a primeira formação, que contam esse mundo onde a sonoridade vira poesia e a poesia geme nas cordas da viola. Um trabalho de esforço e luta explícito em três CDs, mais de uma centena de apresentações e o desejo de preservar parte da alma musical de cada um de nós. No palco do Música à Vista!, a Orquestra Filarmônica de Violas, que este ano chega com o disco Encontro das Águas para mostrar que valeu a pena esperar e criar novos tempos. A mostrar que uma viola caipira não é coisa só de música caipira. Nos dedos dos músicos do grupo ela viaja entre gêneros musicais e épocas mais diversas. Mostra que é única e universal.
Inicialmente, na voz de Wilson Lima, um pouco do que foi plantado por Ivan Vilela no início e de como um instrumento pode mudar momentos e histórias de pessoas e vidas. 

“Eu estou como membro da Orquestra desde o início dos trabalhos, em 2001, num projeto do Ivan Vilela. Aliás, foi ele quem me ensinou a tocar viola. Sempre tive uma baita dificuldade de tocar qualquer instrumento. Fui tocar violão e não tive paciência de aprender. Fui para o baixo e o cara que me ensinava não tinha paciência de me ensinar. Enfim, foi o Ivan que conseguiu me ensinar a tocar. E a viola para mim foi não só a descoberta de um instrumento, de como é bom, como diria o Caetano Veloso, tocar um instrumento. E eu consegui aprender principalmente porque consegui aprender também a cultura caipira. Ao mesmo tempo resgatei minhas raízes, porque eu sou do Interior e nascido na roça – no Córrego da Abelha, ou “Córgo da Bêia”, no bom caipirês, lugarejo que fica em Planalto, patrimônio (distrito) de Andradina.”
“Saí de Andradina muito pequenininho e não pude conviver com isso no passado. Mas a vida toda convivi com meus tios e minha mãe, tinha essa coisa de sempre estar indo para a roça. Tive um contato muito forte. Mas no aprendizado da viola o Ivan tem uma coisa muita legal: ele não ensina apenas o instrumento e a técnica, a história. Principalmente insere o instrumento como vetor da própria cultura caipira. A viola está extremamente identificada até hoje com a música caipira autêntica. Para mim, foi uma descoberta. Foi um universo novo que fui entrando e era muito prazeroso pegar um instrumento, mesmo obviamente tendo algumas dificuldades. Mas me dava e dá muito prazer. Quando ele me falou que ia formar uma orquestra de violas eu, a princípio, não gostei muito da ideia porque, particularmente, não sou muito fã de orquestra de viola. Tem orquestras maravilhosas, claro. Mas eu escuto uma duas, três vezes e depois não me dá muito prazer em ouvir. Mas aí o Ivan disse que não, que o projeto dele era diferente, com um conceito novo.”

Agora, imaginem juntar um ideal artístico de amantes da música caipira com as ideias de um político que tinha alma de amor à cidade e suas raízes. Só podia dar coisa boa.

“Quando o Ivan lançou esse projeto o prefeito da época era o Antônio Costa Santos, o Toninho do PT (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_da_Costa_Santos). E ele encampou de primeira a ideia e o projeto. Então, acabei entrando. Era um projeto muito grande. Foi feita uma chamada para sua formação e vieram uns 80 violeiros. Fez-se uma triagem e ficaram cerca de 50 naquilo que foi chamado de ‘Orquestra A’. O restante foi para a chamada ‘Orquestra B’. Daí começaram os trabalhos e eu vi que realmente era uma proposta diferenciada, de fazer algo aos moldes de uma orquestra mesmo, onde você tem o naipe dos instrumentos de percussão, o naipe dos instrumentos de sopro, corda, enfim, de todos instrumentos. Assim, vieram os arranjos que ele propôs, dividindo o pessoal em diversos grupos e subgrupos. Cada era um naipe, executando uma determinada linha de música. No final deu uma verdadeira sinfonia, que é uma característica da Orquestra Filarmônica de Violas.”

Mas, como Wilson Lima lembra, o sonho de Ivan Vilela e de todos que se juntaram ao projeto não era apenas o de tocar e se apresentar publicamente. Era muito maior. 

“Paralelamente a esse trabalho musical a gente desenvolveu um trabalho de divulgação, estudo e preservação da cultura caipira. Fundamos uma associação onde foi necessário ter uma figura jurídica porque o projeto inicial com a Prefeitura, infelizmente, após a morte do Toninho, acabou. O secretário de Cultura que assumiu após o assassinato do Toninho não demonstrou interesse e queria até extinguir o grupo. Mas nós decidimos que ele não seria extinto. Fundamos a Associação e estamos aí até hoje. A Associação, chamada Núcleo de Cultura Caipira, servia e serve exatamente para isso: abarcar a orquestra, que era o principal braço dela, e o vetor da gente para divulgar a cultura caipira, na riqueza da música caipira. Até hoje, nos shows, inclusive, damos uns insights dessa cultura, falando a respeito, de curiosidades e coisas que as pessoas não sabem ou não dão importância sobre algo que vivem e não percebem. Por outro lado, desenvolvemos oficinas diversas para a formação de pequenas orquestras, oficinas de iniciação musical, de gastronomia caipira, de danças caipiras como o catira, oficinas de instrumentos e criação de instrumentos como a viola. Enfim, enquanto esteve em atividade a Associação fez todo esse trabalho. Tinha até uma coisa maior que a gente acabou uma época recebendo um acervo. Tentamos manter a Associação viva, buscando patrocínios externos, mas não conseguimos.”

Hoje a Associação está em compasso de espera nos seus projetos. O poder público parece não dar importância a coisas que brotam da terra e tem raízes populares. Desde a morte do Toninho do PT, nenhum prefeito mais quis saber de ajudá-la num trabalho de resgate, ensino e difusão da viola e das tradições caipiras. Talvez a “metrópole” Campinas tenha devorado para sempre, nas instâncias executivas, a Campinas caipira de seus primórdios culturais.      

“A viola é essencialmente caipira. Apesar de ter vindo de Portugal, é um instrumento do Interior de São Paulo, do Sul de Minas Sul, de Goiás, Mato Grosso, do Norte do Paraná. E tem a viola nordestina também. Campinas teve um trabalho onde se conseguiu transformar a cultura caipira em patrimônio imaterial, mas o que acontece hoje aqui e acontece em outras cidades é a pouca valorização que se dá ao instrumento. Temos grandes violeiros, como Ricardo Matsuda, Paulo Freire, João Paulo Amaral. Vários meninos da Filarmônica são linha de frente e temos até pesquisadores a estudar viola a fundo. Se falarmos na essência da viola, temos em Campinas oito grupos de Folia de Reis. A Folia é uma das manifestações e ritmos que você toca com a viola. Mas isso é algo que não vai para o grande público. Talvez falte política pública que incentive. Quando o Toninho encampou a ideia do Ivan, talvez tenha passado na cabeça dele que a cidade tem uma Orquestra Sinfônica maravilhosa, mas que custa uma grana para cidade e atinge uma faixa limite que é a elite cultural. Então, a ideia da Filarmônica de Violas era atender outra faixa – as camadas mais populares. Nesse bojo nós tínhamos projetos em parceira com a Prefeitura de oficinas de viola em vários locais de Campinas. Fizemos o Projeto Periferia no Jardim São Fernando, com crianças carentes, e foi uma coisa maravilhosa. Foi legal porque eles não tinham nada de cultura caipira e, de repente, começaram a encontrar uma identidade. Eles não conheciam, mas o pai, a mãe, o avô ou a avó eram do interior e tinham essa coisa da cultura caipira. Então as crianças viram que também tinham essa identidade. Mas, infelizmente, temos a coisa de ser um tipo de música que não é comercial. É de grande valor cultural, mas a gente briga com funk e o sertanejo universitário, ou seja, não dá.”

O certo é que Campinas, a Princesa d’Oeste, talvez como boa parte do Brasil, tenha esquecido as suas raízes culturais e preferido ir por caminhos outros, mais urbanos e, quem sabe, insanos em termos do que resgatar e preservar. O pouso de tropeiros e bandeirantes não lembra e suas raízes e do seu passado.   


“O nosso público é fiel, é aquele que valoriza a arte e o trabalho que a gente faz, de tradição e história, com todo esse arcabouço cultural que vem junto. Mas Campinas poderia se destacar muito mais nessa coisa da viola, poderia ser um polo nacional. Ela é uma cidade caipira e tem a importância de centro irradiador de cultura. Mas, infelizmente, há muita gente que tem um preconceito quanto a isso. E esse é um problema sério em relação ao caipira, porque há muito tempo a figura do caipira foi associada ao Jeca Tatu, aquela coisa indolente. Para alguns, é até uma forma desrespeitosa ser chamado de caipira. Mas é contra isso que a gente luta. É tão grande essa cultura ancestral que nós temos e que chegou aqui com os portugueses. Afinal, o caipira, o caboclo, foi a primeira fusão do europeu com o índio. Ele até falava uma língua própria, o nheengatu, que era mistura do português com o indígena. Tanto que em mil setecentos e alguma coisa o rei de Portugal queria saber porque o caboclo daqui era tão arredio. E um historiador mandou de resposta para ele que ‘o pessoal não sabe o que é lei, não sabe o que é rei e nem sabe o que é fé, porque não conseguem nem falar direito’. Então o rei impôs que ninguém mais falaria o nheengatu e todos teriam de falar só o português. Aí o caboclo começou a falar a língua oficial. Mas do jeito dele. Ou seja, o sotaque é um patrimônio cultural que a gente tem da cultura caipira. E ela está ainda na culinária, nas crendices, na dança, na música. E isso resiste. Apesar de toda essa música que a gente tem aí dita sertaneja, os clássicos sertanejos  são eternos. Tem clássicos de 100 anos cantados até hoje. O que falta realmente é uma política pública e alguém que pegue esse projeto outra vez  e transforme Campinas na capital da cultura caipira.”

“Vi uma vez em Ubarana, no interior do Estado, na região de São José do Rio Preto, onde fomos tocar, que eles tinham um projeto de apoio às companhias de reis. Lá há cerca de 40 companhias de reis e todo o ano há um festival. Uma cidade de cinco ou seis mil habitantes e os caras têm um movimento cultural fantástico desse. Aqui, as oito companhias se reúnem e fazem algo, mas é uma divulgação mínima. Seria preciso que existisse uma política que aglutinasse tudo isso e despertasse o que está aí. Temos uma cultura caipira, música caipira, violeiros e gente boa na cidade, mas tudo isso é desconhecido do grande público. O Núcleo de Cultura Caipira hoje está parado, até por conta da Filarmônica, mas a gente não descarta a voltar com ele.”

SE RAIZ HÁ, A VIDA CONTINUA
A verdade é que a viola caipira e a sua história, enraizadas no coração do brasileiro, desde o momento que um português a dedilhou por aqui, quando a terra era uma simples colônia ultramarina, não vai desaparecer. Ao contrário, esforços como da Orquestra Filarmônica de Violas só dão a real medida de que o que é história e tradição há de vencer um dia.

“A gente está desde 2001 na estrada e, para mim, sempre foi uma coisa, além de prazerosa, que me acrescentou muito na vida, inclusive como jornalista. Pesquisei muito e fiz uma produção de textos e trabalhos. Pude fazer também, através de um prêmio do Governo do Estado, um projeto chamado Viola na Trilha dos Bandeirantes, onde tocamos em seis cidades ao longo do Rio Tietê que foram importantes como pouso dos bandeirantes. A gente fez esse trabalho visando mostrar para essas cidades, que hoje têm problemas de poluição, a sua importância histórica. Isso através da música e da Orquestra. Para mim, a Orquestra representa muito até hoje, onde ela não está mais nem só focada na música caipira. Está na música regional e na música clássica e até no rock. Hoje sou grato e muito feliz por fazer parte desse grupo. Particularmente, me considero um violeiro meia-colher, aquele cara que tenta perseguir a moçada. E isso agora é até meio complicado, porque a maior parte agora do grupo é de craques, até invertendo uma situação do início, onde 80% eram de amadores e 20% de profissionais. Hoje isso mudou totalmente. Mais de 80% são profissionais e tem os amadores que tentam perseguir os caras. Mas, por outro lado, a qualidade dos músicos hoje é o diferencial da orquestra. Os arranjos são muito mais elaborados, feitos pensando em se tirar o máximo do potencial do instrumento. Então, é lógico que a execução também está altamente melhor. E há um rigor com isso para que no final se tenha um espetáculo bonito e emocionante de se ver, como é a nossa marca.”

Com menos instrumentistas – há uma base de 18 na orquestra atual –, o grupo ganhou ainda mais em qualidade sonora e repertório. Logo, se já era bom parar e escutar os dois primeiros CDs ou estar na plateia dos shows da Filarmônica, o que dirá esse terceiro trabalho que sai agora em 2017 e vai percorrer palcos e aparelhos tocadores de música de quem gosta de ouvir melodia aos ouvidos.

“A redução dos músicos na orquestra foi um processo natural. Quando a gente começou, até mesmo os arranjos eram feitos de uma maneira mais simples, onde todas os integrantes podiam tocar, por mais rudimentar que fosse o conhecimento da viola. Obviamente, com o tempo você vai trabalhando o repertório. No primeiro disco, teve 14 músicas. No segundo foram 12 e ficaram muitas de fora. Quer dizer, se alguém chega agora na orquestra já tem um repertório enorme para pegar. Ao mesmo tempo, pessoas iam saindo e outras entrando no grupo pelos mais diversos motivos. Às vezes tinham outros projetos próprios e não dava mais para acompanhar. Por que, você queira ou não, toda a semana tem ensaio. É um trabalho que exige dedicação e comprometimento. Então a renovação é um processo natural. Ultimamente, até por conta desse processo mais refinado, você tem uma confluência de fatores. Além do cara ser obrigado a ter a facilidade de vir ensaiar – e nós temos cinco músicos que vêm de São Paulo – ele tem que ter uma proficiência na viola, um nível de conhecimento que esteja acima da média dos violeiros. Quer dizer, o cara que é violeiro amador terá agora uma certa dificuldade para entrar. Hoje temos professores formados em Música e em viola. Temos, até por conta do Ivan Vilela, onde a USP (Universidade São Paulo) criou o primeiro curso superior de viola caipira, vários meninos que se formaram lá. Tem a Emesp Tom Jobim (Escola de Música de São Paulo) e a Universidade Cantareira. Alguns que vieram para cá têm mestrado, outros têm doutorado. Temos até um com pós-doutorado. É um grau de apuro técnico muito alto e o grupo amador que ainda está aqui é o pessoal que vem desde o começo – e eu me incluo nesse grupo aí –, e tem conseguido estudar e acompanhar os arranjos. Hoje em dia a dificuldade para você achar um violeiro no perfil atual da orquestra é um troço meio complicado. Nós perdemos em quantidade e ganhamos em quantidade. Mas o nosso diretor artístico, o João, sempre penera e quando encontra alguém que dá para o cara entrar, há o convite. Muitas vezes a pessoa vem e fica e há casos que não consegue, por funções do dia a dia. Enfim, o grupo agora está pequeno, mas bem afinadinho. E em relação à orquestra, boa parte do nosso público não é só aquele que gosta de música caipira. Os caras gostam de música de boa qualidade. Vão para ouvir um trabalho bonito. Se a gente toca Casinha Branca, que é uma música tradicional, toca também Led Zeppelin, Villa-Lobos ou Mula Preta. E os caras estão lá para isso mesmo. Com isso, com essa diversificação, em termos de marketing ou de mídia, vamos alcançar outros grotões de públicos é legal, muito positivo.”

A mesma ideia e conceituação tem João Paulo Amaral (foto ao lado), o atual diretor artístico e musical da Orquestra Filarmônica de Violas. Na busca de extrair o máximo de todos, ele dá uma cara nova ao perfil do grupo para mostrar que, apesar de caipira ou sertaneja, a viola é muito mais: é um instrumento universal. Como ele mesmo mostra abaixo.

“Acho que um repertório mais aberto é uma evolução natural do próprio grupo. Concomitante com essa coisa do perfil da orquestra trazer jovens músicos e não só violeiros amadores, jovens que estão em vias de se profissionalizar, estudantes de música. Eu acho que o anseio dessa turma é fazer um repertório cada vez mais desafiador, no sentido de que os arranjos são proporcionais a esse desafio e que a gente consiga mostrar que a viola é um instrumento realmente versátil. Como temos essas ferramentas, temos desejo de usá-las. A viola é um instrumento rico em possibilidades. E no grupo a gente tem uma matéria-prima humana que são pessoas com capacidade e anseio de fazer algo instrumental interessante e que tenha desafios. Como tocar um Villa-Lobos, que estamos trazendo nesse último disco, com a Bachiana; fazer um Led Zeppelin, que tem a ver com a nossa geração, um pouco do que a gente viveu na adolescência, na coisa do rock. E mostrar que isso é legal. Mostrar que a viola está aberta para isso.”

No CD Encontro das Águas há as seguintes músicas: Viola Chic Chic (Tião Carreiro e Zelão), Bachianas Brasileiras nº 5 - Ária (Heitor Villa-Lobos), Fé Cega, Faca Amolada (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), Tocando em Frente (Almir Sater e Renato Teixeira), Alvorada (Chrystian Dozza), Encontro das Águas (Tavinho Moura), Terra Clara (João Paulo Amaral e Luis Felipe Gama), Lamento Sertanejo (Dominguinhos e Gilberto Gil), Brejeiro (Ernesto Nazareth) e Going to California (Robert Plant e Jimmy Page). Ou seja, um passeio por gêneros e tempos onde a viola caipira se inclui e se faz.

“A gente não tem vontade de fazer a música tradicional de viola simplesmente como ela foi composta há 50 ou 60 anos. A gente tem necessidade de botar um pouco da nossa geração e mostrar essa possibilidade que a viola traz justamente com a linguagem da música caipira junto com a técnica que a viola vem ganhando nos últimos anos. A abertura de ser um instrumento que toca em diversos universos, não só da música de raiz, como no choro, na música instrumental e muito mais. Há coisas que estavam desde nosso primeiro disco. Estamos dando sequência nisso. Mas há mais. Pensando em responder a esse anseio de todos nós de querer fazer um disco mais sofisticado que o anterior, no sentido do desafio, ao mesmo tempo que o grupo é heterogêneo. Tem gente aqui que ainda não é profissional e os arranjos têm de conceber essas condições de ter um naipe mais simples. Mas o arranjador mesmo assim tem condições de fazer coisas bacanas. Logo, não é dizer que é tudo complicado. A gente usa a inteligência desses arranjadores que trabalham junto com a gente, a maior parte sendo do próprio grupo, para tirar o melhor da orquestra. E trazer desafios. Esse novo CD, o terceiro, é com certeza um disco que demandou muito esforço de cada um, de estudo individual. Eu gosto de lembrar que alguns, por conta do disco, passaram a fazer aulas de música em paralelo, para conseguir facilitar esse processo de aprender arranjos novos. Então, isso é um fato que mostra o movimento do grupo. Ou seja, não é nada vertical do tipo tem que fazer isso e pronto. O próprio grupo é que está se movimentando. E esse é o interesse que a gente tem: de mostrar a viola e ainda mais com a coisa dos solistas, algo que foi um desafio e traz um pouco mais de responsabilidade para a gente. Ao chamar caras como o Proveta, o Nailor Azevedo,  (http://dicionariompb.com.br/proveta), o Toninho Ferragutti (http://www.toninhoferragutti.com.br/bio/), cada um que é exponencial na sua área, a gente quis fazer um trabalho que justificasse chamar esses camaradas. Não é uma coisa a reboque, do tipo tem um figurão lá que foi dar uma força. Não. Nós queremos fazer um trabalho que justifique a presença deles e que eles se sintam felizes de participar de um trabalho como o nosso.”

O terceiro CD da Orquestra Filarmônica de Violas será lançado neste primeiro trimestre. Agora em janeiro, em Curitiba (nos dias 27, 28 e 29), o grupo o mostra ao público. Como os dois anteriores, acreditem que é para estar na fileira da frente de um reprodutor de música em qualquer casa que goste de coisa boa. E crer, como fala João Paulo, que é possível ainda seguir estrada, meio tão cheia de percalços, pedras e dificuldades num país que dá espaços ao jabaculê e esquece o que tem de bom para ouvir, sentir e ter.

“Nós estamos muito entusiasmados. Nossa intenção é trabalhar esse disco, fazer os shows e investir para termos uma visibilidade muito maior, porque temos muita gente boa. Na verdade, muitos dos violeiros que estão aqui não têm carreira individual. Então, o projeto do grupo é uma forma deles terem um espaço em que possam se projetar e ter um trabalho musical que os ajude individualmente. Todo mundo está um pouco nessa empreita de fazer o disco acontecer e ter uma resposta equivalente ao esforço que a gente tem feito e espera do trabalho. Eu acho que a redução do grupo foi uma coisa natural e nem acho que quem saiu não tinha qualidade. Não necessariamente quem está hoje é melhor do que aqueles que saíram. Já passaram por aqui muitos violeiros excelentes, como o Ivan Vilela (http://dicionariompb.com.br/ivan-vilela), Vinicius Alves (http://dicionariompb.com.br/vinicius-alves) e Rodrigo Nali, entre outros. Uma série de músicos que entrou, de extrema qualidade, mas que, por uma razão ou outra, se desligou do grupo. Acho que isso foi até uma forma de renovar mesmo. Da minha parte, gostaria que o grupo criasse uma certa autonomia até na direção, que é uma coisa de que eu tenho participado bastante para definir o disco, fechar o repertório e trazer uma cara própria para o grupo. Acredito que será uma evolução natural se, eventualmente, daqui a dois anos ou mais, eu não for mais o diretor musical e o grupo tenha outra direção. Ainda estarei participando como músico. Tudo pode acontecer.”

“Eu fico fazendo um paralelo, às vezes, porque a viola ainda tem essa coisa de ter alguém puxando. Mas tem outros coletivos, como por exemplo a Banda Mantiqueira, onde o Proveta é o líder. Ele lidera, faz a maior parte dos arranjos, mas é só por uma questão de organização que ele está lá. Os músicos são de altíssimo nível. Eu espero que um dia a gente chegue nesse ponto, de estar com um grupo de profissionais ou pessoas caminhando com as próprias pernas, pessoas que estão ali inteiras e a gente não precise mais organizar muito, dos músicos terem uma vida própria. Isso já existe, mas é uma coisa de tempo, de renovar, de vir mais pessoas novas. Isso é uma coisa natural do grupo que irá acontecer.”

Assim, que cada palavra do João Paulo Amaral se torne realidade. E certamente o Brasil terá um mundo musical melhor e a chamada vida caipira pegará estradas novas para mostrar que de caipira tem só o nome. Por que a sua essência não tem espaço, tempo ou lugar. Ela é de onde a música chegar ou mandar. Afinal, ainda há música boa a voar, além de aviões de carreira, no ar. Quem quiser saber mais sobre a Orquestra Filarmônica de Violas e resgatar o que de bom tem este Brasil, o site do grupo é o http://filarmonicadeviolas.com.br/. Visite, apoie, creia...