Um site para quem tem acordes dissonantes

FOTOS: Ronaldo Faria e Acervo Pessoal de Fred Jorge

Com Fred Jorge, o som negro e da pista tem lugar na vida 

Ele é paulistano, de idade indefinida. Na verdade, um segredo que guarda a sete chaves e nos impede de saber a quantas décadas o mundo ganhou nele um propulsor de ideias, ideais e a divulgação de escolas musicais. Veio cedo para Campinas, com os pais, e aqui ficou. Se tornou um dos principais divulgadores do samba soul brasileiro na cidade e montou bandas que viajaram na música desde o punk rock ao blues, até chegar no soul brazuca, que ele tem como marca registrada – para o bem de todos nós. DJ, produtor e pesquisador musical, colecionador de discos, é hoje vocalista e líder da Fred Jorge e Os Novos Maiorais, que ele fundou. Com planos de um trabalho conjunto com DJ Hum – rapper e produtor radicado em São Paulo – para este ano de 2017, Fred Jorge é um ícone da resistência cultural no município. Em constante transformação e aprimoramento, que passam inclusive por aulas de canto, ele encontrou o Música à Vista! num bar no Cambuí – o TR3S – e falou em mais de uma hora sobre os caminhos e descaminhos que trilhou para viver aquele que é o seu maior prazer: viver entre notas e acordes na sonoridade da vida. Com vocês, no palco do Música à Vista!, Fred Jorge.

“A minha história musical, o crescimento das minhas ideias musicais e formação como ser humano, antes de ser músico e artista, passam pela Rádio Cultura FM, que não existe mais em Campinas. No dial, ela ficava no 99,1, onde hoje tem a CBN. Foi ali que eu aprendi muito da cultura musical. Na época, se interessaram na rádio pelo meu passe porque eu era conhecedor de música, mas de uma vertente musical: a do blues e do rock. Foi ali que eu desenvolvi o gosto pela música brasileira e do mundo. Por sorte era uma rádio em que você tinha liberdade de escolher. Lá não se trabalhava com o velho esquema de jabá, ‘que ninguém conhece e não existe’. (Nota: jabá é uma espécie de ‘agrado’ que as gravadoras pagam a emissoras de rádio ou tevê para executarem determinada música de um artista). Com isso, tive a oportunidade de aumentar minha pesquisa musical. Mas, com o final da rádio, em 2000, fiquei meio perdido e decidi levar meu trabalho para a rua, tanto por questão de renda como por tudo que eu havia aprendido e queria dar continuidade, ou seja, nunca dê o hit, dê o Lado B que ninguém ouve muito. O hit você dá a conta-gotas. E isso formou o meu jeito de pensar, como DJ ou cantor, sou o cara que escolhe repertório.”

Quando partiu para a rua e resolveu levar de volta para os palcos e plateias o seu aprendizado na música, com banda formada e tudo o mais, a vida do DJ das ondas de rádio trouxe à realidade definitiva a figura de Fred Jorge, um cara que mudaria os rumos da black music em Campinas e se transformaria em referência no gênero. Assim, se ele já tinha experiência nessa área de apresentações musicais, aí a coisa deslanchou de vez.

“Parte do que sou também se deu graças a uma banda que eu tinha na época – a Big Muff – que, de certa forma, me levou para a rádio. Agora, nos dias atuais, a gente resolveu voltar com ela, como diversão de quatro amigos, e estamos fazendo shows de novo. No caso da banda, do seu início, eu estava tocando no Delta (Delta Blues Bar, que fechou as portas no dia 28 de dezembro de 2013, após 22 anos de muita música) e o pessoal da rádio me viu. Assim, a gente começou a conversar. Na época a Cultura FM tocava muito blues e rock e eles disseram para eu dar um pulo lá para conversar. A noite era patrocinada por um programa que se chamava Blues Mais Blues. O programa era ao vivo, no Delta, e nós fomos uma das bandas escolhidas para tocar. E assim começou a história. No fim deu o que deu: um movimento black campineiro que tem um pezinho no baile black, mas tem também uma pesquisa de música brasileira que até então não entrava no baile black. Nós mudamos isso e oferecemos um novo som ao público que não estava acostumado com isso.”

“Na minha formação teve também um pouco da minha família. Uma formação não exatamente dos meus pais, que são evangélicos. Mas foi ali, na igreja, que eu comecei a cantar e aprender música. Mas parte da minha família – tios e primos – era ligada a música. Eu tenho um primo que, de certa forma, é uma influência. Ele era DJ e fazia parte da primeira formação de um grupo muito conhecido em São Paulo – ‘Os Carlos’. Ele era ainda de um grupo de discotecários. Ver ele sair para tocar, arrumar os discos, ouvir as músicas em casa, preparar o set, ouvir os discos, acabou me influenciando. Assim, eu tenho dois lados, que é o de cantor e o de DJ, que são dois caminhos separados e acabam se encontrando por causa da minha cultura musical. Ao final da Cultura FM conseguimos levar para a rua essa música que estava ali, meio que só na rádio. No início, eu nem sabia tocar muito bem como DJ, que é uma coisa difícil, é uma arte. Mas descobri isso com o tempo e me apaixonei.” 

Mas Fred Jorge não viveu somente o mundo da black music e soul music (internacionais e nacionais) e do blues, onde ele também é uma referência. Creiam que, antes desse caminho, ele militou até no movimento punk.

“Antes de ter essa banda de blues, tinha uma banda de punk rock. Acho que uma das poucas pessoas que me viu tocando punk rock foi o Daniel Ete, da banda Muzzarelas. Mas, na época, não tinha celular e nem foto de selfie. Logo, não temos registro. Chegamos a tocar na Concha Acústica do Taquaral, num festival de punk rock, onde encontramos pela primeira vez os Muzzarelas. A minha banda se chamava Repúdio. Comecei a fazer essa brincadeira musical com essa banda. Na verdade, se você analisar só o escrito, entre o punk rock no início e o que veio depois foi uma mudança radical. Mas eu sou uma pessoa curiosa, aberta a novos sons. Estava num aprendizado. Como estava saindo da igreja evangélica, no caso da Repúdio isso com certeza foi bem radical. Cisão mesmo. Tipo, não quero mais igreja, rompi com meus pais e fui para o punk, que era uma música nervosa. Na igreja, inclusive, eu tinha aprendido a cantar, tocar um instrumento. Mas para os meus pais foi o fim: um filho punk. Só que com a formação evangélica que eu tinha, nunca atropelei tanto no movimento. Tanto que estou vivo até hoje.”

“Mas tem uma história legal dessa banda, apesar de sermos maus músicos então. Eu, por exemplo, tocava bateria, não cantava. E nunca tinha tocado bateria antes, tinha só uma certa noção. Só que nós escrevíamos bem as nossas letras. Coisas de como vamos mudar o mundo, coisa revolucionária. A gente lia muito, livros que depois muitos achavam que eram comunistas e coisa e tal. Mas escrevíamos bem. Assim, conseguimos classificar duas músicas num festival de música brasileira que a Unicamp fez séculos atrás – nem vou falar de anos porque eu não conto a minha idade. Mas esse festival foi feito pelo Fernando Faro (http://dicionariompb.com.br/fernando-faro). Tinha a vanguarda paulistana como jurados. E nós conseguimos colocar duas músicas: uma minha e a outra do baixista na época. Fomos tocar nesse festival com um aparato que nunca tínhamos visto na vida. A gente só tocava no quarto. Nós éramos quatro: vocalista, baixo, guitarra e bateria. Quando chegamos, o pessoal nos cumprimentou: ‘Pô, parabéns, classificaram duas músicas’. Mas quando começamos a tocar, nem a vanguarda paulistana entendeu o que a gente estava fazendo ali. Foi uma surpresa e um silêncio total. Ninguém curtiu nada. Era uma coisa violenta e visceral. Só que a gente tinha colocado duas músicas. Isso foi no primeiro dia e, no segundo, voltamos lá para defender a segunda. Quando nós chegamos lá o pessoal ficou meio sem saber e a pensar ‘o que esses caras vieram fazer aqui de novo?’ Só que a gente ficou olhando. Não sabíamos como nos colocar, que tínhamos que ter um produtor, questão de horário a cumprir, fazer a passagem de som. Tanto que nós ficamos esperando lá e, chegou uma hora um cara veio perguntar o que nós ainda estávamos fazendo ali. Dissemos que era para tocar e o cara falou ‘de novo?’ Então foi aquela correria para passar o som. Foi uma maluquice. Acho que ficamos em último lugar. Mas foi legal ter classificado letras com o Fernando Faro. Tinha também o Walter Franco (http://dicionariompb.com.br/walter-franco), que era um dos jurados. E nós estávamos ali, descendo a lenha e tocando uma música muito ruim. Ainda bem que não tinha celular e não ficou nada gravado.”

Cansado de ser do movimento punk, Fred Jorge decidiu seguir a sua vida de aventureiro de mochila e cuia pelas notas e acordes sonoros da MPB. Como ele mesmo faz questão de frisar, é uma pessoa que está sempre a pesquisar, estudar, ouvir e ver coisas novas. Ainda bem que é assim e o mundo musical campineiro é quem ganha com isso.


NA BUSCA DA MÚSICA NOVA
“Eu sempre fui atrás de uma música nova. Nunca fiquei parado num estilo. Assim, a gente começou a ouviu muito blues. Descobrimos o Hendrix, Robert Johnson, B.B. King... nessa época estava rolando a coisa do blues, estava aparecendo no Brasil o Blues Etílicos (http://dicionariompb.com.br/blues-etilicos). Nós vimos um show deles e pensamos: ‘Vamos fazer blues’. A gente pensava que era fácil, que era uma escala só, não sabíamos que era uma coisa complexa, com suas nuances. Mas foi um crescimento. Nós começamos a fazer um blues básico. Eram os mesmos amigos tocando. Daí, partimos para festivais, porque molecada sempre vai atrás de festival. Nos inscrevemos num no Colégio Culto à Ciência e colocamos uma música já nessa fase blues. Eu era baterista da banda, mas sempre quis cantar, coisa que já tinha feito na igreja. E foi nesse festival que o vocalista levou nota zero dos jurados, ficou depressivo e falou: ‘Vamos trocar?’. Trocamos. Ele virou baterista e eu comecei a cantar. Só não lembro quando foi, até para não fazer contas da minha idade. Mas isso não é problema com idade. É só misancene.”

 “Mas depois dessa fase inicial nós nos dividimos. É que chegou o momento que eu queria um pouco mais. Eles não eram músicos e eu já era. Daí, comecei a achar outros músicos, coisa que eu faço até hoje. Encontrei uma galera que atingia mais os meus anseios musicais e montei outra banda de blues, que foi a primeira banda com músicos de formação mesmo. Ela se chamou primeiro Travelling Blues e depois The Travellers.  Tocamos muito no Delta Blues Bar, um celeiro de bandas e onde se construiu de certa forma uma identidade cultural em Campinas. Onde todos os bluseiros do Brasil acabaram passando por aqui. No auge da casa, até o B.B. King passou pela cidade. Virou um point blues brasileiro.”

“Essa banda, que era o The Travellers, foi sofrendo mudanças, até que chegou numa formação bem profissional e gravamos um disco. Tinha o Mário Porto, que é um parceiro musical até hoje e era um músico formado na Unicamp. Então a gente mudou de patamar. Entramos numa fase mais egocêntrica, tipo ‘eu sou bom’. Coisa de gente jovem. Essa banda andou bastante e tocamos muito. Depois, virou a Big Muff. Fizemos um sucesso razoável na cidade, lotávamos os shows no Delta com filas de gente esperando para entrar. Fizemos até uma homenagem ao Hendrix, quando nos debruçamos de verdade na coisa e fizemos algo digno do gênio. Uma coisa que eu tenho saudade e me fez voltar agora. Tanto que resolvemos voltar de novo com a Big Muff. Toda essa experiência, a coisa de ter fãs, porque o começo fez nos sentirmos maiores do que éramos. No passado da banda, porém, houve uma briga de egos e a gente se separou.”

Sem a Big Muff, Fred Jorge decidiu mais uma vez descobrir, curtir e vivenciar novos caminhos. Foi quando caiu na onda da black music e virou um representante autêntico do soul brazuca em Campinas. Um DJ que tem estrada e respeito, um cantor que vai no molejo e no suingue recontar sua própria trajetória.

“Nessa época eu estava começando a relembrar a coisa dos bailinhos, dos meus primos, meu irmão, que era parceiro musical, e sempre tocou comigo. Na época do punk ele já estava ali junto e depois começou a tocar guitarra. Daí nos falamos: ‘vamos pensar noutra coisa e sair um pouco do rock’. Sempre acreditei que você, para conquistar as novas gerações, tem de oferecer coisa razoavelmente nova. E isso faz você manter um estilo. Eu gosto do tradicional, aprendi o que era aquilo, mas também gosto de coisas novas. É lógico que isso te faz olhar para outros lados. No meu caso ainda olhava para trás, musicalmente falando. Mas eu tinha visto outra banda se apresentar no Delta e os caras tocaram James Brown. A banda se chamava Calibre 12 e lá no meio repertório deles, de muito rock e blues, tocaram Sex Machine. E eu falei: ‘Caramba, preciso comprar isso aqui!’ Junto com isso estava rolando um movimento que tem muito a ver, na gravadora Trama, do filho da Elis Regina, o João Marcelo Bôscoli. Estavam fazendo lá um movimento de black brasileiro, desses caras que a gente ainda vê por aí até hoje – Simoninha, Max de Castro e Jair de Oliveira. Todos estavam nessa onda. Além disso, trabalhando na rádio eu tinha informações sobre relançamentos de músicas até um ano antes da coisa rolar. Juntando isso eu pensei que devia ser um bom momento de relembrar esse gênero. E assim nasceu Fred Jorge e Os Maiorais. Uma coisa de saber que estava para ser lançado um movimento de black brasileiro e de ter acabado algo grande para mim – a Big Muff. Além disso, eu não estava mais afim de continuar a fazer a mesma coisa. Até pensei em continuar e manter a parceria com o Pedro Biasi, o guitarrista. Mas aconteceram algumas problemas e eu pensei: ‘vamos embora para outra’. Aí caíram os dois álbuns Racional do Tim Maia (http://dicionariompb.com.br/tim-maia), que a gente não sabia que existia, e começou a aparecer um monte de coisa legal. Um monte de gente das antigas para a gente entrevistar na rádio, como Miguel de Deus (http://dicionariompb.com.br/miguel-de-deus) e outros nomes que me levaram a ouvir esse tipo de música e relembrar um monte de sons legais.”

“Tinha um monte de hit nessa época, mas de repente caiu um negócio no nosso colo que não era tocado e eu pirei. E entrei de cabeça nessa pesquisa musical. Aí entrou na minha vida o meu parceiro DJ Paulão, que tinha uma coleção imensa desses discos e hoje é dono de uma loja de discos na Capital. Eu caí de cabeça na coleção do Paulão e começamos a ouvir coisas e tocar na rua. Essa junção da música americana com a brasileira deu muito certo. Ninguém tocava na época a música brasileira nas pistas. E a gente começou a trazer Chico Buarque para as pistas. Percebemos que dava para tocar um monte de coisas junto com aquelas descobertas por esse pessoal black, que era o tal samba-rock. Eles nem chamavam de samba-rock na época. Era sambalanço. Mas os caras de então só tocavam as músicas quentes desse gênero e que nem dava para tocar mais, de tanta pipoca. Então começamos a pegar as músicas que as pessoas não tocavam dos mesmos discos, o tal lado B. No mesmo vinil tinha outras músicas que eles ignoravam, por que não eram tão pop na época. Mas esse repertório que eles deixaram para trás fez o nosso repertório. Nas coletâneas de bailes black dizíamos: ‘vamos ouvir essa aqui’. E daí jogávamos ela nas pistas. E a coisa acontecia. Isso se tornou um movimento bem forte. Tão forte que todos os movimentos musicais têm um período, um tempo limitado, mas a black music campineira continua viva até hoje. É certo que agora nós estamos numa crise institucional, vamos colocar assim, que diminuiu muito a vontade das pessoas de se divertirem, além da crise financeira instalada. Mas até hoje a black campineira sobrevive e tem público. Estamos aí!”
 
INGLESES FAZEM O MERCADO REDESCOBRIR O BOM
E se a crise financeira matou um pouco o mercado musical, restringindo lançamentos e limitando apresentações, reduzindo a possibilidade de shows e de público, nem por isso o fim se fez. Ao contrário, a busca e resgate feitos na interminável caixa de novidades que é a MPB mantêm a chama acessa.

“Fred Jorge e Os Maiorais continua nessa onda, explorando os ritmos desse estilo brazuca. E ainda tem muitos ritmos para a gente explorar. Mesmo o samba-rock. Como todo o estilo musical no Brasil, a gente tinha as gravadoras fomentando o gênero. E elas trabalhavam no Brasil com períodos: ‘agora vamos explorar isso e agora vamos investir em outras coisas’. Por isso, a black brasileira tinha sido colocada de lado há muito tempo. O que a fez ressurgir não foram as gravadoras brasileiras. Foram os DJs ingleses. A black brasileira que ressurgiu do nada e estava mortinha da Silva foi redescoberta pelos DJs londrinos, sendo que o primeiro cara que ele redescobriram foi o Marcos Valle (http://dicionariompb.com.br/marcos-valle). Ele virou um Deus para eles porque tinha umas coisas com um pé na Tropicália junto com o rock e a MPB. A partir daí os gringos vieram para cá, pegaram discos que não valiam mais nada e transformaram em ouro. Hoje em dia, se você pegar um disco Tim Maia Racional é peso de ouro. No mundo inteiro a gente tem DJs que tocam a música brasileira. Eu mesmo viajei para fora e toquei em lugares com todo mundo pronto para ouvir esse tipo de som. Isso acontece na Inglaterra, que é o celeiro, Estados Unidos, Austrália, Canadá. Em todo o lugar tem um DJ alimentando essa coisa da música brasileira e não deixando ela morrer. Se aqui no Brasil o movimento está meio caidaço é porque as gravadoras não mandam em mais nada e já não têm interesse.”

 “O que forçou as gravadoras daqui a relançarem muitas coisas foi o sucesso que renasceu lá fora. E mesmo o cara que descobriu esse ritmo brasileiro no passado foi procurar também outras coisas, como a cumbia da Colômbia e outros ritmos. Há algum tempo o que se está redescobrindo também são bandas brasileiras que foram influenciadas pelos Os Mutantes (http://dicionariompb.com.br/os-mutantes). Tem um monte delas. Os caras lá fora lançaram um monte de coletâneas da Brazilian Fuzz, como eles chamam. Eles estão agora atrás disso e de uma coisa que a batida brasileira mistura com o gênero disco. Chamam de Brazilian Mug. Eles vão colocando nomes na nossa música e você tem de falar que nem eles. Esses são os ritmos que os caras estão redescobrindo agora. O Fuzz a gente nem sabia que tanta gente tinha gravado -  que é a música mais barulhenta, o lado mais roqueiro de Os Mutantes. E o Mug foi uma coisa que todo mundo gravou na época da disco music, que era uma batidinha meio disco. Para gente era apenas disco music. Mas, para os caras, virou ‘o que é isso?’. Por que é uma música que oferece o suingue do samba. Música brasileira oferece isso. Não é quadrada. Deixa os gringos loucos. O suingue que a gente tem vem do samba, do Clube do Samba (http://dicionariompb.com.br/clube-do-samba). Isso modifica até uma disco music. E aqui no Brasil nem tínhamos catalogado esse tipo de música. Era apenas o pessoal que gravava no momento. De certa forma, isso fez a volta do Marcos Valle à parada. Ele foi o cara que mais gravou essas coisas. Tem muita coisa do Tim Maia e da Rosana. E agora, por último, os caras estão atrás do nosso gênero brega, de Odair José. Pegam os discos originais e relançam, muitas vezes sem pagar direitos autorais. Ou seja, nós temos muito para oferecer para o mundo.”

Mas uma realidade que parece bater em quem segue a vida de artista é aquele velho drama: dá para viver de música, mesmo com ela ter tanto para dar aos brasileiros e o mundo? Como no futebol, há raras exceções neste universo profissional que pagam suas contas única e exclusivamente com acordes, letras ou arranjos. Na maior parte dos casos, o músico vive com o pé em dois barcos: um na formalidade de mercado e o outro na paixão pela noite e pela música. E Fred Jorge está nesse time da divisão entre a paixão e a realidade de mercado.

“É bem difícil nesse país você viver exclusivamente de música. Eu consegui fazer isso por um bom tempo. E faço até hoje em duas frentes: como DJ e como banda. Ou seja, se não cabe a banda no orçamento de quem contrata, cabe o DJ. Ao invés de eu ter um trio, tem eu, o DJ. Concorri muito comigo mesmo um tempo. Do povo dizer: ‘vamos colocar o Fred Jorge e Os Maiorais na fita. Quanto é?’ Ao saberem, vinha a resposta: ‘Ô loco, então vamos colocar o DJ.’ De certa forma, eu brigava com meu próprio preço, mas me fazia trabalhar. Só que chegou um momento que eu precisei ter uma grana fixa, na hora de casar, de ter um filho, de ver a corda apertar. Mas eu sempre tive isso, esse segundo emprego. Eu tinha a rádio, que era legal. Quando ela fechou, fiquei cinco anos sendo apenas artista. Foi quando tentei viver só de música. Eu sempre priorizei a música, mesmo assumindo outras responsabilidades. Só que essa agilidade do DJ também me encanta. Um DJ faz e mostra em tempo real o que está rolando no mundo. A banda está sempre correndo atrás, por depender das pessoas. Minha banda, por exemplo, são sete músicos no palco. É uma loucura ter uma banda tão grande assim.”

Por essas e outras, Fred Jorge não para e continua se aprimorar aquilo que lhe dá prazer como pessoa. Entre trabalho formal e trabalho musical, segue a vida.


“Não me considero completo. Até hoje tenho aulas de canto. Eu digo que canto é que nem fazer ginástica. Uma vez que você para, mesmo executando, mesmo cantando, você começa a andar para trás. Fazer canto é uma necessidade. Todo o cantor deveria ter isso pelo menos uma vez por semana na sua agenda. Se não tiver um mestre, tenha um método e mantenha a dinâmica de exercícios. Se não fizer isso, acaba perdendo. Na verdade, eu tenho alma de menino. Se eu fosse só músico, tocando só rock, seria mais conservador. Como eu abri os horizontes, acabo ouvindo zilhões de coisas que me levam a pensar diferente até na música do Fred Jorge e Os Maiorais. Tenho vários amigos DJs que produzem e brincam com essa música brasileira. Mas eu não toco a música brasileira apenas do jeito que ela foi criada. Eu sempre busco a mãozinha de algum DJ. Acho que mexi em três músicas, na verdade. Sempre corro atrás do novo. Não sou o cara que fica parado no tempo. Ainda tenho gás e vontade de fazer coisas novas e modernas, até com a banda. Fazer algo mais eletrônico, ligado ao gueto funk, não apenas tocar a música em si. Gosto de inovações. Isso faz você sempre olhar para o futuro, mesmo brincando com a música antiga.”

“É o que eu gosto: redescobrir coisas que a gente deixou passar, por não ter jabá que as divulgue de forma correta. Como Di Melo (http://dicionariompb.com.br/di-melo/dados-artisticos), que é um dos caras que foi redescoberto pelos gringos agora. Estão relançando um disco dele depois de 40 anos. Só depois de 40 anos o cara está lançando o seu segundo disco. E ele é sensacional. Mas estava muito à frente do seu tempo e a gravadora na época não bancou isso. Tipo será que vai dar certo? Mas essa é uma visão errada da gravadora. Essa ‘escolha da arte’ é que me incomoda. Por que naquela época para o cara gravar um disco era muito difícil. Di Melo tinha um disco e ficou engavetado. Não só ele. Tony Bizarro (http://dicionariompb.com.br/tony-bizarro), outro que tem um discaço e ficou engavetado porque não viram ele como pop ou vendável. Ninguém botou um jabá ali. Isso incomoda. E vem os caras de fora, descobrem e falam: ‘Quem é esse cara? Deve ser um Deus no Brasil’. Como o Miguel de Deus (http://dicionariompb.com.br/miguel-de-deus), que tem outro discaço e morreu alcoólatra. Não teve a divulgação necessária da gravadora. Quando eu entrevistei ele, na Rádio Cultura, cantou umas músicas que a gente nem conhecia e no intervalo falava: ‘Pô, você tem um real?’ E o cara que trouxe ele, o Camilo Chagas, do Bar Ilustrada (espaço musical e cultural que fez sucesso no Centro de Convivência nos Anos 80/90), dizia que era para não dar nenhum dinheiro. Que a família dele disse que se ele ganhasse ia comprar pinga. Ele, desdentado, a dizer que ia tocar uma música e depois eu dava um real, mas como todo aquele suingue. Um cara que eu admirava.”

QUANDO A INFORMÁTICA E A WEB COMEÇAM A MUDAR TUDO
“Hoje, pelo menos, tem uma mudança no mundo da música. É o mundo virtual, que alterou um pouco essa coisa de dependência da gravadora. Mas, gravadora é gravadora. Ninguém está ali para perder dinheiro. Então, todas essas coisas que apareceram de novas tecnologias elas foram lá e pegaram uma parte. Tipo, eu como gravadora não consigo mais lançar um disco, mas consigo ter um artista que eu divulgue. Elas pegam o cara e colocam dinheiro para ele aparecer na internet. Ou seja, ele é o cara que mais vai aparecer. Hoje a gente sabe que as redes sociais são compradas também. Você compra seu espaço. Então as gravadoras migraram para a internet. Elas não fazem mais contrato com ninguém, a não ser que você sozinho tenha conseguido muito financeiramente, como a Galinha Pintadinha. E hoje tem também a sorte da internet. Se um monte de gente começar a ouvir a sua música e ela viralizar, pode acontecer. Pode acontecer com qualquer um. Mas tem que ter sorte. Fora isso você tem que ter grana. Porque é assim, o virtual é só um meio para você aparecer. Mas você tem de pagar uma assessoria para te colocar nos jornais, na tevê, nas revistas. Você tem que ter grana para fazer isso acontecer. Tem que ter uns R$ 500 mil, pelo menos, para poder aparecer.”

“Um exemplo de um cara que apareceu usando muito bem a internet foi o Crioulo. Ele pagou uma assessoria que eu conheço e virou. Mas o cara também tem que ter qualidade, porque eu conheço um monte de gente que fez o mesmo caminho e não deu certo. A Céu também apareceu assim. Ou seja, tem um caminho, mas esse caminho não é barato. Tem uma cantora que ninguém conhece, mas se você procurar na internet vai ver – a Lua. Fizeram a Lua para ser outra Céu. Ela teve o mesmo caminho, mas não deu certo. Logo, esse caminho não é de certeza assim. Ainda tem um risco. Só que a internet mudou a relação musical. Eu posso lançar uma música e pode não dar certo, mas ela vai ser ouvida aqui no Brasil e lá no Japão, na Cochinchina, sem distribuição, que era o que a gravadora fazia. A gente cortou um monte de passos. É uma evolução. Mas o poder financeiro ainda manda.”

“Tirando quem tem sorte, é difícil acontecer o sucesso mesmo tendo tudo isso na mão. A gravação digital também facilitou muito a vida. Antigamente você tinha que ter um estúdio pesado e caro, fitas. Hoje em dia você vai e grava no HD do seu computador. A evolução digital colocou a gente no futuro. Mas ninguém estava preparado para isso. As gravadoras, por exemplo, não planejaram esse cenário. Logo elas que ganharam muito dinheiro regravando CDs. Foi um tiro no pé. Elas se perderam, com CDs na mão e a pirataria rolando para tudo que é lado. O músico deixou de receber o que tinha, as gravadoras também, houve corte de contratos. A gente vê muitos músicos anti-internet, essa coisa de baixar da rede. Mas ninguém mais compra disco. Você só ouve o cara falar: ‘Poxa, você baixou o disco novo de fulano?’ Ninguém fala mais ‘você comprou o CD de fulano?’ Assim, a gravadora agora pegou os shows. Quando um cara assina contrato com a gravadora, o show dele deixa de ser dele, passa a ser da gravadora. E isso era a única coisa que elas não colocavam a mão. Hoje o artista ganha ‘x’ e ‘x’ é da gravadora. Coisa de contrato ruim que você geralmente faz em início de carreira. Foi o que aconteceu com o Prince, um dos meus mestres. Chegou uma hora que ele não queria mais contrato, começou a pintar slave na cara, mudou o nome para ferrar a gravadora, na cisão de um grande artista e uma grande gravadora como a Warner, num contrato feito quando se é jovem. Chegou um momento que ele disse, ‘tô perdendo aqui’. E isso acontece muito. Coisa de você pensar: ‘vou fazer um contrato com uma gravadora que me dê visibilidade’.”

“Eu, por exemplo, recebi um convite de uma gravadora gringa pequena – Afro Baile Records. Fez mil promessas. Eu sentei com o Mário Porto, que é meu amigo e dono do estúdio onde eu gravo desde o Big Muff, e falei ‘Mário, a gente é brasileiro e sabe que o cara está malandreando’. Mas mesmo assim a gente assinou com a gravadora. Só que nunca voltou um centavo pra nós. A gente liga e eles dizem: ‘não tem nada’. E nós tínhamos o disco em todas as plataformas digitais. Recebi retorno e entrevistas de rádios dos Estados Unidos, da Europa, da Austrália, do Canadá. Como a gente não tinha grana para fazer o caminho do Crioulo, fomos brincar. Nem o disco era tão bom quanto o do Crioulo. O nosso foi feito na raça, em Campinas, com amigos. Mas teria andado um pouco mais se tivesse esse outro caminho da injeção de grana.”

Hoje com apresentações das duas bandas e a vida de DJ, Fred Jorge já vislumbra inclusive novos caminhos para 2017, com um trabalho em conjunto com DJ Hum, fora do universo campineiro. A possibilidade de alcançar novos públicos e ouvintes, fãs e admiradores. Na verdade, agora ele questiona se ter dedicado tanto tempo a Campinas foi a melhor solução para a sua carreira. Mas o que ficou, ficou. Como ele gosta de dizer, o futuro sempre é um espaço aberto e pronto para se trilhar, ainda mais por alguém que tem talento e garra. E isso Fred Jorge tem de sobra.    

“A gente sempre pensa: ‘pô, podia ter andado um pouco mais se fosse por aqui ou por ali’. Mas, de um modo geral, hoje em dia o que eu quero é deixar um disco legal gravado com o Fred Jorge e Os Maiorais. É isso que eu estou buscando. Eu quero colocar toda essa minha bagagem cultural e musical, que é extensa, num disco e num projeto. É meio maluco. Mas a gente é maluco por música. Eu sou o cara que começou lendo a revista Bizz (http://bizz.abril.com.br/). Depois, com a internet, é legal poder entrar e pegar uma letra ou uma história. Eu pirei. Sou muito ligado na internet. De uma forma geral, ainda não tenho uma autocrítica da minha carreira. Se voltasse um pouquinho, acho que deveria ter ido mais forte assim para a música. Saído de Campinas. É o que eu falo para a galera: quer aparecer, saia de Campinas. Aqui é uma cidade provinciana. Você vai achar que algo está acontecendo e não está. Tem de sair. Mas eu gosto dessa cidade e, quando viajo, quero voltar sempre.”


REPENSAR CULTURA E BRASIL
“A verdade é que no Brasil não se pensa a cultura como negócio. Hoje você não consegue dar emprego para todo mundo no período do dia. O negócio está feio. Logo, se você consegue ter uma noite legal, vai tentando, vai colocando as pessoas dentro da lei. Isso é trabalho. Tem pai de família que vive disso, cuida dos filhos. E ainda tem gente que trata quem trabalha na noite como marginal. Como não temos mais espaço de dia, temos de fazê-lo à noite. E a noite gera dinheiro. Tem quem diga que a noite também gera malandragem e não o sei o quê. Mas esse é o mundo. As melhores coisas foram criadas na noite. Temos de respeitar algo que cria emprego, gera dinheiro. Que se crie um espaço, como em Brasília. Pensemos em algo que deixe as pessoas sobreviverem com o trabalho. As pessoas precisam comer, ter internet e uma casa. O desejo material de todos é o mesmo. Simplesmente o músico fez uma opção diferente de ser médico ou advogado. Mas todo mundo tem o seu valor. O lixeiro tem o seu valor. Deixa ele parar de trabalhar para você ver. Mas o brasileiro sempre pensa no status. Do tipo aqui é legal, lá não. Aqui é importante, lá não. Mas lá é necessário também. Vamos pensar na cultura como negócio. A gente precisa de uma boa música, uma dança ou uma boa peça da mesma forma que precisa ir ao médico. A gente sai mais leve desses lugares culturais, faz a gente respirar e tirar o estresse do dia a dia. Talvez isso tenha mais importância do que certas profissões que a gente valoriza mais.” 

Assim, Fred Jorge não vai parar nunca e tentar e criar, se recriar. Tempo, o que é o tempo? Mais vale uma nota musical na mão do que dois acordes voando. E com uma nota só se fez até samba. Na carreira deste DJ e cantor, músico da noite e pesquisador, o que vale é sempre recomeçar e tentar.


“Eu acho que a gente ainda tem um fogo para queimar. No Fred Jorge e Os Maiorais a banda é nova. Só tem eu da formação original. Tem o Cartaxo que é baixista e da segunda formação. Estamos num patamar muito mais elevado hoje e quero curtir isso. Estamos assinando contrato com a Batuque Records, que é a gravadora do DJ Hum, que é uma lenda do hip hop brasileiro. Somos amigos de frequentar a casa um do outro. Fizemos uma música juntos, Disse que Disse, que virou um hit nos bailes funks da periferia, que continuam rolando. Os bailes funk não acabaram. Agora, em 2017, vamos sair com um compacto duplo, com Disse que Disse de um lado e outra que estamos produzindo do outro. Depois vamos lançar um disco cheio, com umas dez músicas, lançar um vinil e o resto jogar na internet para ver o que acontece. O vinil vai para os DJs e colecionadores. Afinal, você ouvir a música num toca-discos profissional é outra coisa. Agulha e tocador razoável fazem você ter um som totalmente acima do digital. E olha que eu sempre fui mais tecnológico. Mas o disco de vinil é insuperável. E é isso: estamos aí para o que der e vier!”