Um site para quem tem acordes dissonantes

O samba desembarcou no Brasil no século 19, junto com os primeiros escravos trazidos da África. Primeiro na Bahia, depois no Rio de Janeiro. Daí, nos batuques trazidos pelos africanos, foi engatinhando. Nas décadas de 30 e 40 do século passado, em plena ditadura de Getúlio Vargas, ganhou espaço na indústria fonográfica e se tornou produto essencialmente nacional. Se nas décadas anteriores ser sambista era malvisto e podia até dar cadeia para quem resolvesse levar uma roda de samba na rua, aos poucos a sua essência se solidificou. Virou várias vertentes de um mesmo ritmo, mostrou as culturas negra e brasileira como uma só e passou a não ter mais fronteiras no Brasil. Daí chegar em Campinas e ficar foi um caminho sem volta. E foram surgindo sambistas aqui e acolá. Entre esses, uma mulher de voz incrível, com um repertório da melhor qualidade, sambista de primeira linha e que, acreditem, tinha medo de se colocar diante de uma sala de aula para apresentar um trabalho que fosse. Que não gostava de acompanhar a própria voz. Mas, da timidez para os bares, grandes palcos de teatro e rodas de samba, do violão que lhe abriu os caminhos da música para o cavaquinho, Ilcéi Mirian fez um caminho como o samba – chegando devagarinho para ficar para o sempre. Hoje, a ex-professora de História, que mantém a história viva nos seus projetos de música, é um dos pilares para que esse ritmo nunca deixe de ser marca registrada brasileira e não suma das terras campineiras. Com vocês, Ilcéi Mirian, intérprete e cavaquinista. Com certeza a voz feminina maior que a cidade criou e fez surgir.

“Eu venho de uma família musical. Meu avô materno era cantor de conjuntos regionais. Ele tocava cavaquinho e percussão, em Dracena. Eu não tive muito contato com ele, porque eu sou de Campinas, nasci aqui. Mas acho que tem aquela coisa do sangue, de estar na veia. Eu sempre gostei muito de música. E aqui em Campinas, com minha avó e meus tios que eram jovens e faziam aqueles bailes, lembro de sempre de estar no meio, pentelhando. Lembro muito bem daqueles sons de Jorge Ben, Benito de Paula, Roberto Ribeiro, Clara Nunes, Martinho da Vila, Beth Carvalho... pois rolava muito na vitrola, nos vinis, nas festas e reuniões que eles faziam, nos bailinhos. Isso era da época que eu tinha cinco ou seis anos. Mas eu fui crescendo dessa forma. Meu pai gostava muito de música e eu sempre ouvia junto. Isso ficou na memória. Tinha o rádio também. Eu lembro que quando estava na 1ª série, ouvia muito um programa numa rádio AM. Ele se chamava O Clube do Rei. Rolava muita música do Roberto Carlos. E eu, na hora do almoço, já ligava o rádio para ouvir. Tinha ainda outros programas de música brasileira, na Morena FM, onde rolava muita coisa legal.”

“Quando eu tinha 15 anos, me interessei em aprender violão e fui com uma amiga fazer aulas. Minha amiga desistiu rapidão, mas eu continuei com um violão emprestado de um dos meus tios. Foi uns seis meses assim, até que o meu pai viu que a coisa era séria e resolveu comprar um violão pra mim. Nas aulas eu não gostava muito de cantar. Não é que eu não gostasse, eu não me sentia bem de cantar e ficar me acompanhando. Parecia que não combinava o instrumento com a minha voz. Além disso, as minhas primeiras professoras tinham umas vozes muito agudas e não combinavam com a minha. E elas passavam as músicas no tom delas. Eu não conseguia alcançar. Mas depois, quando fui ter aulas com o Dino, ele mudou isso. Me estimulou a cantar. Como ele tocava cavaco também, disse que eu deveria aprender o instrumento, por gostar muito de samba. Ele emprestou um para eu praticar e logo me apaixonei pelo cavaquinho. Acabei abandonando um pouco o violão e comecei a tocar e cantar com um grupo musical.”

“Minhas referências do samba são os nomes que a gente ouve. Clara Nunes, por exemplo, é uma delas. Já fiz vários shows com músicas dela. Mas é algo tenso também, até pela seleção que você tem de fazer das músicas. Isso porque vai ficar muita coisa boa de fora. Para mim, tem gente que você se emociona até de falar o nome da pessoa – como Paulinho da Viola, que é uma paixão minha. E tem também o Caetano, o Chico, o Gil, que são pessoas que influenciaram a gente, independente de não serem do samba. Tem ainda o Nelson Cavaquinho, Benito Di Paula, Cartola, Geraldo Filme e Jorge Ben, entre tantos. Pro Jorge Ben cheguei a entregar meu CD. Sou super fã dele. O primeiro disco que eu ganhei de presente, antes de ser cantora, foi um dele. Porque lá em casa quando era aniversário do meu irmão eu ganhava presente também e vice-versa. Num aniversário dele ganhei o ‘Solta o Pavão’, do Jorge Ben. Como era comum na época, você tocava o disco inteiro várias vezes, sem mexer na agulha. Conhecia todas e sabia a sequência. Já aqui em Campinas tive uma influência no samba do Beto, do extinto Aparrô. Ele me ensinou muita coisa. E teve o Seu Nenê do Cavaco, com quem tive aula. Seu Nenê, aliás, foi a pessoa mais generosa que eu já conheci no mundo.”

UNIR DOIS MUNDOS NUM SÓ
Para uma mulher que tinha decidido seguir a profissão de mostrar nas aulas de História um mundo diferente dos livros oficiais, com centralidade na realidade de quem muitas vezes nem faz parte desses livros que contam os contos da classe dominante, a música ainda era um hobby, uma paixão a mais. Mas, até quando esses dois mundos – da Educação e do Samba – conseguiriam andar juntos na vida de uma pessoa que não consegue fazer nada pela metade e se joga de corpo e alma naquilo que faz?

“Tinha um pessoal no conservatório onde eu fazia aulas com o Dino que se reunia toda a semana na chácara de um deles para tocar. Começamos então a ampliar os encontros, fazer umas festinhas. No início a gente nem cobrava nada, porque estávamos começando. A partir daí, fomos tentando nos aprimorar um pouco mais. Depois fui fazer faculdade de História e nem passava pela minha cabeça vir a trabalhar com a música. Para mim, a minha profissão seria dar aulas de História. Eu trabalhava no banco de dia e fazia faculdade de noite. Meu foco era esse. No último ano rolaram os estágios, me formei, saí do banco e comecei a dar aulas. Continuava a me encontrar com o pessoal, mas tocar era um hobby. Na minha cabeça não tinha a menor possibilidade de trabalhar com isso.”

“Mas as coisas vão acontecendo e aí começamos a receber convites para tocar em vários lugares, algumas tevês. Daí eu vi que era importante ter um trabalho definido em CD, nem que fosse um demo com duas ou três músicas. Fizemos o primeiro com o meu empresário, o Marcos Ferreira, e depois lançamos um completo, que é o ‘Samba de Batom’. Isso foi em 2002. Em 2010 saiu o ‘Minha Identidade’. Este ano nós pretendemos lançar talvez um clipe, na onda de que a imagem virtual é o que está acontecendo.”

“Na época do lançamento do ‘Samba de Batom’, eu trabalhava na Escola Estadual José Vilagelin Neto, no Jardim Proença. Lá tinha uma professora que gostava de fazer umas reuniões no consultório do marido dela. E ela sempre queria fazer uma coisa diferente. Daí perguntou se eu não queria fazer uma apresentação para as pacientes do marido, falar da minha carreira. Eu respondi que não tinha carreira, que a minha carreira não era a música. Mas eu já fazia coisas parecidas na sala de aula. Na época tinha dias que eu levava o cavaco, pedia para alguns meninos levarem uma percussão, quando eu ia falar de alguma coisa de história do Brasil. A gente juntava geografia e outras matérias, numa interdisciplinaridade que já acontecia naquela época. Isso fazia a participação ser maior dos alunos. Então eu pensei: que eu poderia falar também da história do samba. Por que eu sempre gostei disso, de conhecer como a música foi criada, sua repercussão, o que o compositor estava pensando naquele momento. Contextualizar com o período histórico do país. Então eu topei fazer a apresentação para as pacientes e pintou esse lance em mim de montar os trabalhos temáticos.”

Na decisão de assumir o samba como profissão, um rompimento doloroso, mas que tirou da dor da perda dos alunos o início de uma função que iria juntar as duas coisas numa só. Afinal, projetos que unem a música a momentos históricos não é algo mais do que não deixar a chama se apagar?  

“Foi naquela salinha, com oito ou dez pacientes, minha mãe, meu pai, meu empresário, que eu fui falando da questão da negritude, do período da escravidão e outras coisas mais. Aí, sem nenhuma pretensão, eu vi que as pessoas estavam se emocionando com aquilo, prestando uma atenção enorme. Eu já notava isso em sala de aula, que prendia um pouco a meninada, eles participavam mais e curtiam mais a aula quando tinha o apelo da música. Nesse mesmo dia do consultório cheguei com canções até o período da ditadura militar. Aí uma mulher se emocionou pra caramba com a música, por que o pai dela tinha sofrido com a repressão. Foi quando eu percebi que esse era um apelo que a gente podia trabalhar de uma forma legal.”

“Criamos um projeto chamado ‘Cantando a História do Brasil’, onde eu falo da história do país e faço várias músicas. A maioria é de sambas. Mas não só. Contextualizo o período e vou cantando as canções. Então outra professora de uma escola particular me convidou para fazer o projeto lá. Nesse momento aí já estava na hora de gravar o primeiro CD. Juntou que eu já tinha ideia de pedir o afastamento do Estado. Para trabalhar mais em cima do CD e ver o que poderia virar. Foi aí, nesse momento para trabalhar o ‘Samba de Batom’, que eu criei outros shows tendo como tema Cartola, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Vinicius de Moraes, Elis Regina. Vários temas foram acontecendo a partir de então.”

“Aí venceu o período da licença, que era de dois anos, e tive de optar: ou continuava com as aulas, porque eu era professora efetiva, ou pedia exoneração do cargo. Daí eu não tive opção: pedi exoneração com dor no coração. Era uma escola muito legal, com meus alunos desde a sexta série. Onde desenvolvi um lance legal. Eu exigia a todos que não tivesse cópia nos trabalhos, que os alunos fossem falar na frente da classe sobre um tema. Por que essa era uma dificuldade que eu tive enquanto aluna na faculdade, a de me expressar. Na faculdade eu só apresentei um trabalho para a classe no último ano. Até então tinha conseguido escapar. Preferia fazer tudo para o grupo, pesquisar tudo, escrever, mas evitava falar. Eu era muito tímida. Cheguei a pensar: será que escolhi bem a minha profissão? Como escolher uma profissão que eu tenho de me comunicar com as pessoas e tenho vergonha de fazê-lo? Me formei em 1988. Assim, diante dessa minha dificuldade, preferia que meus alunos não a tivessem ou passassem por tudo o que eu passei. E houve uma evolução legal da classe. Quando eu estava no terceiro ano com eles, todos já estavam desembraçados. Foi um período muito bom e rico de aprendizado para mim e para eles. E eu, de certa forma, continuo ligada à história por conta dos shows temáticos que fazemos no teatro.”

CERTO PELO INCERTO QUE DEU CERTO
Na sua nova trajetória de vida, Ilcéi Mirian descobriu que entre a estabilidade de um emprego público e as rodas de samba há uma distância de cifrões que nem sempre se encaixam nas contas diárias. Mas, se tudo no mundo fosse estabilidade, conformismo e tranquilidade eterna, muito do que hoje existe nunca estaria aí. Assim, a sambista da voz que solta afinação e paixão nos palcos juntou os “cacos” da professora e virou o jogo com a melhor gingada de quem sabe o que quer.

“A questão da estabilidade financeira, quando desisti de dar aulas, teve um peso. Como professora do Estado, todo o mês o salário era certo. Você sabia a quantia. Na música você estranha porque é um trabalho totalmente instável. Tem mês que é show de bola e tem mês que é uma tristeza. Mas, faz parte da profissão. Para mudar um pouco isso, a gente então começou a escrever projetos para tentar virar e ver acontecer, porque trabalhar em música só nos bares é algo muito limitado em termos financeiros. Eu procuro sempre fazer parcerias, principalmente em outras cidades, para expandir o meu público. Hoje, por exemplo, eu tenho um trabalho de parceria legal com a cantora Bruna Volpi. Ela é mais a coisa popular e eu o samba. Daí, quando a gente se junta, vem a galera dela e vem a minha. Então esse povo se cruza. Quem não conhece o trabalho dela fica conhecendo e vice-versa. Tem uma troca onde a gente só aumenta e expande nosso público. Quem não tem grana para pagar apresentação na tevê, pagar gravadora, emissora de rádio, tem de agir dessa forma, em parceria, unir as forças e dar um embasamento maior para o trabalho profissional. Junte ainda a coisa de expandir o mercado com apresentações em São Paulo, no Rio e outras cidades. Isso é essencial.”

“Eu acho que não adianta ficar esperando por espaços que caiam do céu. Nós é que temos de tentar arrumar o espaço. Faço isso sugerindo para alguns lugares que a gente acha legal se o proprietário não quer levar um projeto de samba, fazer uma parceria, abrir espaço. Se não dá para levar toda a galera do samba, o que seria legal, para fazer um barulho e tocar junto, você enxuga. Se não vai o que seria o ideal, se leva um violão e um percussionista, além de mim e do meu cavaco. Se for preciso também, apesar do nosso negócio ser o samba, a gente faz bolero, rola bossa nova. Teve até a casamento que eu fiz Vinicius porque uma moça começou a namorar o futuro marido num show temático meu sobre o Vinicius. Ou seja, você adapta seu repertório para garantir uma grana a mais. Há opções.”

“Sair da escola, fazendo um balanço realista, valeu a pena. Tem um momento na sua vida que você tem que ver o que é prioridade e aquilo que você quer fazer. Não dava para ficar com um pé em cada canoa. Como professor você tem as aulas, as reuniões, preparar as aulas, lidar com situações na sala de aula, fazer milagres. Tinha, na época que eu ainda estava na escola, por outro lado, os ensaios com o grupo musical. Como eu sou muito responsável, não ia ficar faltando na escola, pegando licença, para unir as duas coisas. Para mim, ou consigo fazer o negócio e dar conta de forma legal de duas coisas, ou tenho de optar por uma. Eu tinha também de lidar com a minha voz. Era o embate na classe e a voz de cantora. Estava começando a ficar rouca. Se tivesse conseguido conciliar as duas coisas, tanto pelo afetivo como pelo financeiro, seria bom. Mas, como dizem, não se pode ter tudo. Logo, você tem de escolher algo.”

Mas e o samba? Será que o poeta quando pedia que não deixassem ele morrer tinha razão na sua súplica? Com tanta raiz fincada nas terras e corações brasileiros, produto de exportação, com certeza não. Um tanto como mostra Ilcéi Mirian, conhecedora do seu mundo de notas e acordes, batucadas e canções.

“Se o samba pode morrer? Não! Não tem o risco de o samba morrer. Não tem a menor possibilidade. A gente tem dificuldade de fidelizar o público e muitas vezes não consegue renová-lo. Portanto, você não pode contar com a galera integralmente, mas ele não vai sumir. Sempre tem pessoas que o farão viver. Tem um vídeo que eu vi de um menininho, de uns três aninhos, lá de São Paulo, que está numa roda de samba, sentado numa cadeirinha. Aí ele está com um tamborim pequeno na mão e está rolando uma música do Wanderley Monteiro. Ele está lá, já no ritmo, na batida. Mas, na hora que o samba cresce, ele vai junto também. Leva a batida na boa. Quer dizer, aquilo está dentro dele. Ele é um sambista nato. Porque o sambista faz tudo com a maior alegria do mundo. Muitas vezes dane-se cachê ou que tenha pouco público na sua apresentação. Para quem faz com amor e pela vida da gente, vale o samba. É claro que você ter uma casa de espetáculos cheia é tudo de bom e show de bola. Mas, mesmo que tenha só uma pessoa na plateia, você tem de devolver o carinho daquela mesa que veio e a energia que ela trouxe. Eu sempre curti o samba.”

“Já surgiram no Brasil mil gêneros musicais que duram um ano ou seis meses sendo bancados, patrocinados, como uma coisa forçada na mídia, e somem. Somem por que não eram bons. Mas o negócio do samba, não. É uma coisa natural, vindo da África, mas nascido aqui. É a marca registrada do Brasil. Mesmo que não se goste, tem que respeitar. Até no Rock In Rio deste ano ele vai entrar. Mesmo na fase meio ruim do samba, não dá nada que o ameace. É só você fazer uma rodinha em qualquer lugar que a galera chega junto, samba junto. E isso porque o samba mexe com as pessoas. Mesmo o povo elitista pra caramba, que acha que o samba é de preto e da ralé, que não quer se envolver, eu fico só de olho. Depois de um tempo de samba rolando perto deles, mesmo esses caras elitistas já estão envolvidos, com o pé batendo no ritmo. Eu, por exemplo, sou uma pessoa que faço de tudo para divulgá-lo e colocá-lo em evidência da melhor forma possível. Porque quem é sambista o faz com amor. Por conta disso, dos sambistas, pode certeza: o samba nunca vai morrer...”

E se não morreu e nunca irá desfalecer, como garantir que o melhor do samba de raiz não se deixe entregar a um “samba universitário” e coisas que se dizem samba, mas nada têm a ver com a essência e a beleza do ritmo tradicional? Onde é possível em Campinas, terra que maltrata tanto a música ao vivo e seus resistentes cantores e instrumentistas, manter a chama acesa?

“Não sei se o samba de raiz está perdendo seu espaço, mas acho que é uma falha nossa, que fazemos e levamos esse samba, de nem sempre conseguirmos chegar no público. Nosso público não é tão antenado na internet como é o da molecada que curte outros gêneros, que consegue lotar espaços rapidinho só com divulgação nas redes sociais. É a coisa da divulgação. Muito mudou também. O nosso público de há 15 anos, por exemplo, não está mais livre, leve e solto. Muitos casaram, têm filhos, a situação já não é mais como era antes. Daí a necessidade de renovar o público. Tem ainda a questão da violência, da conjuntura econômica, da blitz que não te deixa beber... é tanta coisa que as pessoas às vezes desanimam. Já para a meninada jovem não tem tempo ruim. Mas agora, por outro lado, tem muita gente optando em fazer reuniões em condomínios fechados ou chácaras, com o pessoal de lá organizando tudo, desde a venda de ingressos à questão de bebidas. Eu fiz e faço shows nesses lugares. Teve um que chegou a ser tão organizado que tinha até ingresso com o meu rosto. Ou seja, é mais uma opção. Mas as coisas mudaram muito, com certeza.”

“A internet, é lógico, ajuda a divulgar. Mas não dá, nessa altura do campeonato, para mudar o meu estilo. Muitas pessoas perguntam porque a gente não faz outras coisas, não muda de gênero musical. Mas é isso, do samba, o que eu gosto de fazer. E fica evidente, para quem vai nos nossos shows, de que é aquilo ali o que o povo quer ouvir. Logo, eu não vou forçar uma barra. Até posso, num evento, cantar uma ou outra coisa, como sertanejo de raiz, se o pessoal pedir. Mas vai ser só uma música. Nunca vou fazer um show disso. A gente tem que se respeitar e respeitar a história que a gente construiu. Mesmo por conta de mídia ou situação financeira. Ao mesmo tempo que a internet facilitou acesso a muitas coisas que a gente não tinha, como manter um contato entre artistas de forma fácil, saber o que está rolando, trocar informações, houve o outro lado. Abriram-se portas, com certeza. Mas, noutro sentido, banalizou muita coisa. Ficou tudo muito imediato, sem conteúdo.”

UMA FEIRA QUE É A FILHA QUERIDA
Mas Ilcéi Mirian faz mais do que perpetuar o samba com qualidade e garra. Para ela, as escolas de samba campineiras precisam se libertar da dependência do dinheiro oficial para crescerem. E de liberdade para tentar o que deseja, mesmo sem apoio oficial, ela conhece. Com luta pessoal e desejo de garantir à cultura negra o seu lugar na cidade, criou um evento que une expositores, manifestações culturais e gastronomia: a Feira Cultural Afro Mix Campinas. Este ano chegou à sua 15ª edição.  

“Acho que as escolas de samba em Campinas têm que ser pensadas como empresas, ter mais estrutura, como acontece no Rio e em São Paulo. Mas é preciso também que elas tenham amor por aquilo que fazem. E mesmo que role dinheiro, quando você vai num ensaio de uma escola, a maior parte do povo que está lá é formado por quem gosta, não tem nada a ver com dinheiro. Eu estive na Vai-Vai, fui algumas vezes em ensaios, e é uma coisa contagiante. Esse ano eu me apaixonei pelo samba deles, que falava de Oxum, lindo. E eu gosto muito do diretor de Harmonia de lá – inclusive tem uma música dele no meu CD – que é o Fernando Penteado, um estudioso da história do samba em São Paulo. É claro que essa profissionalização das escolas não acontece da noite para o dia, mas aqui em Campinas eu não sei o que há. Já tentei até me envolver algumas vezes em escolas, mas do jeito que é não dá. Mesmo que a gente não consiga ser mega profissional - sabendo das condições e das dificuldades que as pessoas enfrentam no seu dia a dia de sambista -, tem que ter o mínimo de compromisso. O pensamento não pode ser o de quanto a Prefeitura poderá pagar para bancar o desfile. Esse dinheiro, se vier, tem de fazer frente diante de um trabalho da escola no ano inteiro. De envolver a comunidade do bairro ou de quem gosta da escola. É preciso conscientizar a galera, fazer cursos, se reunir, trazer gente de São Paulo para dar palestras, direcionar um pouco para onde se deve agir e resgatar o samba, mesmo sem o poder público, à busca de patrocínio.”

“A Feira Cultural Afro Mix Campinas é minha filha. O evento foi na Estação Cultura (Estação Cultura ‘Prefeito Antônio da Costa Santos’, na Praça Floriano Peixoto, s/nº, no Centro), com entrada franca. São expositores que têm o seu produto voltado à comunidade negra. É uma feira que coloca a cultura negra em evidência. Com expositores de Campinas, do Rio, de São Paulo, de cidades do interior paulista, de Minas Gerais e vários lugares do País na praça de artesanato. Na praça de alimentação, comidas africanas e outras. Tem toda uma estrutura de segurança, estacionamento gratuito e ainda apresentações de samba, jongo e capoeira. No último ano foram 15 mil pessoas passando por lá, mesmo sem o apoio da Prefeitura. Há também dificuldade de somar com o empresariado, mesmo sabendo que a comunidade negra consome de tudo e as parcerias com empresas seriam um ganho para todos. Mas, depois que a gente começa um evento nessa proporção, não dá para parar. Se financeiramente fica no vermelho, ver a massa participando, o tanto de gente, os comentários legais, a efervescência, fica também o azul do trampo. Ali rolam muitas parcerias entre os empreendedores e virou uma rede de contato imensa entre os expositores. Hoje a gente conta com uma galera que joga a feira para o mundo. E crescemos a cada ano.”

A nós todos, no som do samba de raiz , saravá! 

FOTOS: Ronaldo Faria e Acervo Pessoal de Ilcéi MIrian

Ilcéi Mirian no samba da vida e na vida do samba

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