Kiko Soares e a certeza de que viver vale a pena

Imagine você ter conhecido o fino do Samba, do Choro e da MPB. Percorrido bares e palcos de Campinas, de São Paulo e do Rio de Janeiro, tocado neles, se deixado envolver por um papo gostoso de madrugada, pelo cheiro de névoas de cigarros e copos de cerveja a se derramarem no início, meio e fim. Solte a imaginação e vá mais longe. Se veja a estar nos cantos onde a musicalidade se entrega numa mesa, no acorde de um cavaquinho, na percussão de um pandeiro, na voz da madrugada que antecede o sol da vida. E saber depois de que muito valeu e foi feito, visto e guardado na cabeça e no coração para sempre. Pois é isso que Kiko Soares pode falar que fez e viveu. Músico da velha guarda desde a adolescência, com escola superior do samba e a pós-graduação do chorinho no currículo, ele sobe no palco do Música à Vista! para contar histórias de dar inveja a quem ama a noite e o mundo musical. Num papo conversado no Bosque dos Jequitibás, entre pássaros que chegavam para dar uma canja de cantorias e o murmurar de uma árvore ou outra, Kiko voltou no tempo, falou das suas memórias e até deu uma chance ao destino de um dia retomar aos tons e acordes como função preferencial.

“A história da minha vida na música é um negócio interessante. Você vai vivendo, vai aprendendo, conhecendo as pessoas. É um mundo infinitamente legal porque você se busca na história musical. Isso apesar de eu acreditar bastante que a memória do povo brasileiro a respeito da música deixa a desejar um pouquinho. Mas ainda assim você tem a chance de descobrir a natureza musical, que é um negócio legal. Quando eu comecei musicalmente foi com o samba. E o samba me envolveu de tal forma que carregou a minha vida e foi um negócio muito bacana. Acabei logo de início a gostar do samba e conhecer pessoas legais dentro dele. Afinal, o samba e a música popular brasileira são de uma riqueza imensa, pois são uma viagem que você faz no tempo. E sempre acreditando que as pessoas cultuam o samba até hoje de uma forma bacana. Hoje você tem novos compositores, uma galera de surgiu no pagode e outros sentimentos. Mas, se você parar e pensar a respeito do samba, é um negócio muito legal porque no meu início no samba já fui cair no Buraco Quente, no Morro de Mangueira, no Rio de Janeiro. Acabei conhecendo Nelson Cavaquinho (http://dicionariompb.com.br/nelson-cavaquinho), Cartola (http://dicionariompb.com.br/cartola), Candeia (http://dicionariompb.com.br/candeia) e uma galera que, respeitosamente, dentro do samba, criou uma espécie de respeito. Falar hoje de samba sem falar deles não dá.”

“Acabei conhecendo pessoas do samba que eu tive o maior prazer de ouvir cantar, poder parar para ouvi-las cantar. Até hoje fico impressionado que não surgiu ninguém para cobrir essas vagas. Uma dessas pessoas que me deu prazer de ouvir foi o Roberto Ribeiro (http://dicionariompb.com.br/roberto-ribeiro) que, para mim, foi uma das maiores vozes que surgiram no samba. Ele foi uma das pessoas que eu conheci no Clube do Samba (http://dicionariompb.com.br/clube-do-samba), porque eu consegui morar um pouco no bairro do Méier. Acabei também conhecendo João Nogueira (http://dicionariompb.com.br/joao-nogueira) e cada vez fui me interessando mais por essa gente. Por exemplo, você frequenta o morro e vê que todo mundo acha que o morro é um lugar que você não pode ir ou sobreviver, mas ele é uma das sete maravilhas do Brasil. E você acaba por conhecendo coisas que são interessantes.”

Pare agora, raro leitor, e pense só mais uma vez: cair no Buraco do Quente da Estação Primeira de Mangueira e depois se dirigir de trem até Madureira e viver no Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela no seu sonho de ritmos e ziriguidum. Se inveja musical matasse, ao menos esse escritor já teria tido um infarto.  


“Na Portela, conheci Natal e o Paulinho, pai do Paulinho da Viola, a Velha Guarda da Portela (http://dicionariompb.com.br/velha-guarda-da-portela), Monarco, Argemiro, Casquinha, Tia Surica e um monte de gente. O samba desperta na gente uma coisa que te leva a conhecer as coisas boas que tem nele. Por que quando você fala samba e conhece o verdadeiro sentido que vem da raiz de uma favela é muito legal. Já cheguei a estar junto com o pessoal da Velha Guarda a fazer sarau, feijoada, churrascos, encontros e um monte de coisa. Daí você conhece o lado musical dessa gente humilde e se pergunta como o cara conseguiu fazer uma letra de um samba com essa história de vida vivida em relação a um amor perdido, por exemplo. O cara buscou um histórico de composição que é a coisa mais linda do mundo. Daí acabei conhecendo muita gente. Fui muito amigo e toquei muitas vezes com o Agepê (http://dicionariompb.com.br/agepe) e o Sombrinha, que foi do Fundo de Quintal, o Jorge Aragão. Criei uma amizade legal com muitos sambistas e de um cara que eu sou apaixonado por ele até hoje e digo que é o embaixador do samba e da África no Brasil, que é o Zé Ferreira – Martinho da Vila. Com o acervo que esse cara tem não vai ser esquecido nunca.”


DO ASFALTO PARA O MORRO

Mas sem só de samba vive o Brasil e o universo musical brasileiro. Este é tão grande que vai muito além de quadras e barracões, altos de morro e batucadas no asfalto. E Kiko Soares desceu para o asfalto e caiu em Copacabana. Lá, na tal de Princesinha do Mar, havia muito mais para se ver e escutar. Havia vida e muito mar. Brisa e copos a levantar, paixões a viver e corações a sangrar.  Mas até em Sampa rolou muito do que tinha de ser. Aliás, São Paulo foi um lugar onde Kiko Soares pôde descobrir os lados fantástico e difícil de ser artista da noite.

“Quem conheceu o Beco das Garrafas (http://dicionariompb.com.br/beco-das-garrafas) sabe o que é viver. Por que o Rio de Janeiro tem uma história musical bem legal. Já no túmulo do samba que dizem na atual conjuntura, que é São Paulo, há agora uma mistura de ritmos, onde um quer ser melhor do que o outro. No entanto, acho isso besteira. A música traz um sentimento que é você pegar o instrumento e tocar, fazer o que você faz de melhor quando gosta da música. Em São Paulo, por exemplo, eu tinha um amigo, que acabou falecendo e era dono de uma das maiores fábricas de instrumentos do Brasil, que se chama Contemporânea. O filho dele é quem toca a coisa hoje. Lá eu fiz amizades que fiquei maluco: Benito di Paula, Almir Guineto, o pessoal do Os Originais do Samba (http://dicionariompb.com.br/os-originais-do-samba), Nereu do Trio Mocotó (http://dicionariompb.com.br/trio-mocoto). Músicos de uma época em que você tinha uma dificuldade musical muito maior de ser algo na MPB, porque você não podia enganar. Tinha de cantar mesmo, sem enrolação.”

“Aí fui descobrindo também o mundo em São Paulo e acabei por estar em lugares que eram maravilhosos. Na Bela Vista, na Rua Rui Barbosa, defronte ao Teatro Zaccaro, tinha uma casa que se chamava Catedral do Samba. Lá acabei conhecendo pessoas que estavam num patamar musical muito acima de qualquer músico que você vê hoje. Eram Leny Andrade (http://dicionariompb.com.br/leny-andrade), Pery Ribeiro (http://dicionariompb.com.br/pery-ribeiro), Benito di Paula (http://dicionariompb.com.br/benito-di-paula) e outros músicos que a gente tocava junto na noite. Mas a Catedral foi uma escola musical porque eu acabei por conviver com músicos que eram da maior categoria. Com a Leny Andrade até hoje eu tenho contato pelo Facebook.”

“A música, a partir daí, foi tomando uma forma muito legal na minha vida. Eu dizia: ‘que mundo maravilhoso’. Apesar de sofrer muito com isso. Afinal, quando você quer viver de música tem de formar vários cachês, porque um só não dá para sobreviver. Eu morava em Campinas e ia para São Paulo todos os dias; tocava numa casa na Avenida Paulista e que se chamava Plataforma, que era do Sargentelli, e isso acarretava uma perda de tempo, a corrida de uma casa para a outra. Eram cinco ou seis casas noturnas que você tinha de formar. Mas era legal também porque nessas casas você encontrava pessoas na noite.”

Entre andanças e danças, madrugadas de garoa na cabeça e concreto armado de paisagem, Kiko Soares conseguiu aprender os caminhos que batiam em portas de bares e boates onde rolavam descobertas sonoras e verdades musicais. Artistas que marcaram para sempre a MPB, de forma indelével e eterna se juntaram à sua vida. E se quiser mais, misture a tudo o Carnaval, com suas bandas de salão.

“Eu, por exemplo, tinha um lugar que eu acho que se chamava Terceiro Uísque. Lá eu encontrei Roberto Luna (http://dicionariompb.com.br/roberto-luna), Cauby Peixoto (http://dicionariompb.com.br/cauby-peixoto), Altemar Dutra (http://dicionariompb.com.br/altemar-dutra). Um dia eu estava numa casa, mas não lembro o nome dela, e a gente tinha acabado de tocar na Bela Vista e descia a rua. Tinha no caminho várias casas e acabei por entrar em uma que eu fiquei fascinado. Simplesmente estava tocando Evaldo Gouveia (http://dicionariompb.com.br/evaldo-gouveia), que foi um dos maiores compositores para o Altemar Dutra. Era uma casa com piano, baixo, violão e guitarra. Conversando com ele depois, disse: ‘nós estamos aqui há uma hora e cinquenta minutos, você está cantando as suas músicas e não repetiu nenhuma’. Ele virou para mim e perguntou se tinha gostado. É claro que eu disse que amei, puta coisa linda. Tudo letra com conteúdo, pra fazer você chorar. Aí ele virou para mim e disse que ainda tinha muito mais de 350 para mostrar. Aí você vê o nível musical em que eu fui me infiltrando. Foram coisas onde fui tirando conhecimento e tudo o mais.”

“Uma época eu tocava em bandas daqui de Campinas, de São Paulo e do Rio de Janeiro onde fazia muito Carnaval. E o Carnaval virou uma coqueluche para a gente que era músico. Era um ganho a mais. O Carnaval, pra gente, era nossa Páscoa e nosso Natal. Era quando a gente ganhava uma grana legal. Convivi muito com o Neguinho da Beija-Flor. E teve uma passagem na minha vida que foi muito legal. Foi com o Emílio Santiago (http://dicionariompb.com.br/emilio-santiago), que acabei conhecendo em São Paulo e tive contato aqui em Campinas também porque eu tocava numa casa chamada O Cangaceiro. Tinha uma mulher, a Judite, que era proprietária de lá e tinha contato com todo esse pessoal da música porque ela ajudou muita gente em São Paulo. Uma outra pessoa que eu conheci através dela foi o Germano Mathias, com quem tenho contato até hoje. Ele é um cara que quando começa a cantar perto de você vem a pergunta de como consegue ter aquela divisão de samba de breque. O cara é uma sumidade.”

Mas de onde vem essa tal de música? Será que, por ser tão grandiosa e plural, pode sair de qualquer lugar? Certamente não. Com certeza, ela mora quieta em alguns e explode de repente como uma tempestade que não para. E aí, sai de baixo! Não há como segurar. Ainda mais quando “síndico” da MPB surge avassalador no cenário para te mostrar que a vida é uma brincadeira de agora sem muito depois.

“Música, para um bocado de gente, é fácil e flui de uma forma natural. Tem até um monte de gente que gosta de cantar, acha que é cantor, se mete a cantar. Mas eu acho até que tem de fazer isso mesmo, pois a música frita sua memória de uma forma que você busca lembranças nela. Não fosse a música, você teria perdido como certeza a memória e as lembranças. E são essas lembranças, da memória musical, que não devem morrer jamais. Então falar de música, viver de música, ter contato com a música é uma coisa maravilhosa. Eu sempre digo para as pessoas que querem se classificar musicalmente têm de ouvir Raphael Rabello (http://dicionariompb.com.br/raphael-rabello), que para mim é um dos melhores violinistas que conheci até hoje, e também o Hélio Delmiro (http://dicionariompb.com.br/helio-delmiro). Para aprender é preciso ouvir o que é mais que bom.”

“Uma experiência bem legal que eu tive na música foi com o Sebastião Maia, uma das pessoas que mais influenciou a minha carreira musical. Foi o cara de maior feeling na MPB. Tinha um conhecimento fora do normal de todos os ritmos e de tudo. As pessoas diziam que o Tim Maia (http://dicionariompb.com.br/tim-maia) era um cara chato e não sei o quê mais. Mas como você pode chamar de chato um cara que é profissional e quer fazer com que a música se perpetue? Tudo bem que ele era um cara complicado e vi muitas cenas dele de comprovavam isso. Mas um dia ele estava na TV Cultura, fazendo o programa Ensaio com o Fernando Faro, e deu um probleminha no áudio. Daí ele falou: ‘eles me chamam de chato e tal, mas como é que eu vou interpretar uma canção, seja minha ou de quem for, se eu não estiver me sentindo bem’. O Tim Maia tinha umas coisas assim. Num show do Palmeiras, por exemplo, estava marcado para ele chegar às 15h, e nada. De repente, às 17h20, entra o Sebastião. E fala: ‘e aí, galera, estou meio atrasado?’ Ele pegou o microfone às 17h30 e eram dez horas da manhã do dia seguinte e ele ainda estava cantando. E queria continuar. O pessoal teve de desligar o som para ele parar. Foi um profissional incompreendido. Ele criou o estigma de ser um atrasão. Mas se você pegar a discografia do Tim, você não achar nada de ruim. Como João Bosco e Djavan, todos super profissionais. Igual ao James Brown, que cantava e virava muito para atrás nas suas apresentações. Eu não entendia. Mas um dia eu fui ver uma entrevista dele sobre isso. Ele tinha o propósito firme de tocar e cantar bem e a olhada era para ver se os músicos estavam sentindo a coisa. Se algum não estivesse, ele mandava o músico embora.”

A MÚSICA NUNCA IRÁ MORRER
“O que é legal que eu vejo até hoje é que a música não morrerá de forma nenhuma. Eu li na mídia um negócio interessante da música ‘Sá Marina’, do Tibério Gaspar e Antônio Adolfo. O Tibério pediu para a Ivete Sangalo gravar novamente Sá Marina, porque na frase final da música ela falou uma palavra errada. E o Tibério fez essa música há bastante tempo e ainda cobra a perfeição. Tem também a Rosa Passos, genial, uma baixinha que dá vontade de pegar no colo e gravou só com feras, com quem mantenho contato até hoje.”

Mas Kiko Soares não quis parar no tempo ou em ritmos fixos. Logo veio explodir outra paixão: o Chorinho. Gênero genuinamente brasileiro, as notas deixaram o cavaquinho e o pandeiro do músico tarimbado reféns como se fosse esse ritmo o primeiro. E haja coisa a tocar e viver.

“Outro segmento que eu amo demais e tenho verdadeira paixão é o Choro. Nesse gênero acabei me envolvendo com pessoas que são fora do normal. Eu estava um dia, por exemplo, em São Paulo, na Casa Del Vecchio, com o Evandro, que foi um dos maiores bandolinistas que pôde aparecer. E nesse lugar tinha uma salinha de música que ele me chamou para ver quem estava lá. Eram somente Di e Meira. Dino é a referência musical do violão de 7 cordas no Brasil inteiro. Meira é o violão de seis cordas . O Choro é um mundo extraconjugal, onde você casa com a música de vez. Quando você começa a ter contato com essa gente que viveu o Choro e faz Choro é que descobre coisas maravilhosas, com uma musicalidade incrível. A verdade é que a música é um mundo infinito e é a alma do negócio. Portanto, música na veia eternamente!”

As decepções no mundo da música, contudo, quando há necessidade de se pagar as contas diárias, os contratos firmados, deixa ainda a desejar. O mercado não paga bem, os espaços a cada dia se diluem e a verdade é que é preciso resistir...


"Quando comecei a me envolver musicalmente e querer viver só de música descobri uma coisa: é um espaço árduo e duro demais, porque você concorre com pessoas desleais. Em Campinas, por exemplo, eu ficava meio perdido. Tocava aqui com várias bandas e em São Paulo também. Aqui tinha o Edgar de Souza, que era o pai do samba local. E ele falava para eu ficar na cidade e tocar com ele, que tinha me dado uma puta força no samba. Foi o que fiz. Passei a tocar direto com ele e viajávamos muito, junto com as mulatas. Daí eu ficava entre querer descobrir cada vez mais a musicalidade que havia fora de Campinas e queria também me prender aqui. Tínhamos músicos fantásticos por aqui. Campinas era para ter sido um espaço musicalmente fantástico. Mas você paga muito caro por ser honesto e querer fazer as coisas direito. O que eu recusei de trabalho no Exterior foram inúmeras vezes. Tudo porque não tinha contrato assinado. Era viajar sem contrato, no possível cachê. Os primeiros medos começam por aí. Não dá para arriscar. Assim, acabei depositando em Campinas o meu conhecimento musical.”

Nas décadas de 60/70, invadindo ainda um pouco dos Anos 80, Campinas era, sem dúvida, um grande palco para todos os gêneros musicais. E não faltava lugar para o músico se apresentar, como mostra Kiko Soares. Mesmo que com novas decepções e um futuro cada vez mais rarefeito a sons e emoções.


“As casas noturnas daqui já foram muito legais. Tinha duas que deixaram saudade: o El Cairo e o Armorial - este último do Seu Ângelo Lepreri, com o Arnoldo no piano. Campinas tinha um nível musical muito bom, elogiado até por gente que vinha dar aulas na Unicamp. Mas acabou tendo desvios na minha vida onde a música foi me entristecendo, do tipo não estar conseguindo ganhar dinheiro com ela. Foi quando me interessei por filmagem e fotografia. Já trabalhava com áudio em alguns estúdios. Daí a música foi se distanciando, mas não acabou. Música é a pior droga que você pode deixar correr na veia. Quantas vezes não cheguei em casa, guardei os instrumentos e falei que não tocava mais em lugar nenhum... principalmente quando você ia tocar e nenhum músico que ia tocar com você aparecia. Mas sempre fui profissional e já cheguei a segurar a onda sozinho, com 30 mesas no bar e eu no cavaquinho fazia os casais dançar.”

“Teve um dia que o Barroso, que tinha um bar em Campinas, perguntou se eu e o Faustão, que tocava um baita violão, poderíamos acompanhar o Miltinho (http://dicionariompb.com.br/miltinho). Eu no pandeiro. Na verdade, o Miltinho tinha um defeito muito grande: cantar bem e dividir a música de uma forma sensacional. Fizemos meia dúzia de canções e no fim recebemos um baita elogio disso. E isso era gostoso. Com o Jair Rodrigues (http://dicionariompb.com.br/jair-rodrigues), outro dia, foi igual. Ele elogiou também. Era legal você ouvir esse tipo de coisa, ser elogiado por feras da MPB. Mas tem aquela coisa chata também. Numa casa, por exemplo, fomos nos oferecer para tocar. Era um grupo de samba e já éramos conhecidos na noite. Mas o cara falou que não sabia se dava, que não tínhamos material nenhum para apresentar para ele, que era um risco que ia correr etc. E a casa estava com uma lotação legal. Aí eu disse para ele que ele não precisava correr risco nenhum e nós íamos tocar duas músicas. Conclusão: na segunda música a pista de dança estava lotada. Daí chamei o proprietário, após acabar a música, e perguntei o que ele iria fazer depois de duvidar da nossa palavra e do nosso profissionalismo. Ele pediu para não pararmos e nós tocamos mais duas horas, para não deixar o público na mão. No final da noite ele chegou e perguntou quanto era. Daí eu respondi que ele devia ter dado valor para nós antes. Pedi que desse ao menos uma ajuda de custo para os músicos e nada para mim. Só que eu nunca mais tocaria lá.”

Mas vale a pena, no peso da balança entre as perdas e danos, ganhos e conquistas, entregar as pontas? Será que quem viveu tantas coisas incríveis com mestres da MPB conseguirá parar e viver em paz, de pijama e chinelo de dedo (apesar deste ter sido durante um tempo o uniforme de Pixinguinha), mesmo que o samba diga que a mocidade não volta mais? Para Kiko Soares, hoje é tudo quase uma incógnita. Mas as cordas do cavaquinho ainda poderão, quem sabe, servir como esmeril de emoções. E dali surgir um afiar de ferramentas sonoras, algo para arredondar cantos e sons, retirar rebarbas ou tinta acumulada de uma história que não se apaga jamais.

“Quer dizer, você passa por situações onde você não perde o feeling musical, mas perde a vontade de trabalhar com a música. E as casas noturnas de Campinas, nessa época, como O Cangaceiro o Flor de Lis, sobreviviam do Samba. Quer dizer, havia espaço, mas perdi agora a vontade. Cheguei e virar sonoplasta em rádio. Ainda passei um pouquinho a fazer banda de bailes, mas fui deixando de lado a música e buscando ganhar dinheiro para sobreviver. Até hoje evito de ir a alguns lugares onde me pedem para cantar. Mas, num momento recente, acabei dando uma canja e fiz um pot-pourri. Ao terminar, uma menina veio me perguntar porque eu, com meu potencial, não me apresentava mais na noite. Daí pensei que quando você canta e consegue atingir a alma de alguém com a sua musicalidade, mesmo não sendo composição sua, mas uma interpretação, é um negócio maravilhoso. Só que Campinas foi matando a música de tal forma que hoje tem um cara com violão raramente na noite. E nem todos são bons. O meu mal é gostar de coisas boas e ter ouvido bom para a música. Mas isso é ruim, porque você se torna autocrítico. Eu vivo hoje de produções musicais porque é delas que faço a área de filmagens e fotografia. Mas, por outro lado, acredito que um dia ainda vá voltar à música, pois é um negócio legal de reencontrar amigos. E, quem sabe, não deixar que a música morra em Campinas.”

Daqui da Terra de nós apaixonados pelos sons e pela gente boa dos sons, a música espera que essa vontade chegue de vez a Kiko Soares e volte para ficar. Já do alto de um tanto acima, parte das velhas guardas de Mangueira e Portela também devem torcer para tanto, assim como parceiros de noitadas passadas, intérpretes de gente nobre, ídolos que nunca morrem. Que o vício da música, enterrado e cravado na veia e no sangue, possam ser maiores e devolvam a um representante desse universo o desejo e a certeza de retornar aos palcos da vida.

FOTOS: Ronaldo Faria e Acervo Pessoal do Kiko Soares

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