Um site para quem tem acordes dissonantes

Na vida infinda, ao som de Jazz
20/02/2019


Sangue jorrado nas mãos, lembranças toscas de tardias emoções e unções de lábios e corpos unos e indivisíveis, visíveis apenas àqueles que transpassam o universo que delimita o dia que nunca acaba e a orgia que nunca termina. Talvez carícia tardia, saudade inaudita, recordar que não se esvai. Nas fotos retintas, nos vídeos procrastinados, na ausência de contos findos e calados. Quem sabe amor catatônico, poema atônico, cantar afônico. Poesia revivida ao som de um jazz, vida reescrita no borbulhar de uma cerveja que escorre suada no copo que descansa à espera da boca. No incerto das esquinas e cismas, a espera desatina.
Paixões apequenadas em quase nada, pictóricas histórias mortas em serenatas, luas perdidas num céu que não se sabe imortal. No jogral do tempo, poetas defloram a primavera já finda no infinito que há entre a realidade e o sonhar. Quem sabe um escriba que nada sabe se debruçará no mais alto precipício sem fim ou frontispício e se jogará no interregno que há entre o início e o fim. Senão, entre o cancioneiro que sobrevoa a mansidão e as notas que voam sem solidão, haja um lugar esquecido no piano que se desdobra à canção. Pedaço de rio, resto de mar, ausência de chegar. No porto, a mulher revoa o tempo que graça à findar.
II
E quem sabe o que teria sido... O choro premido, o arcabouço renhido, a ausência do crivo. Senão, quem sabe, um talvez inenarrável na altivez da certeza da vez. E noites perdidas no acordar que só o amor dá, entre pernas cruzadas, chanchadas de paixão, rimas de mera ilusão. Na aldeia dos ventos que traz ondas e espumas para perto do nada, o toque de frígida fada. Na fala inaudível, a derrocada. Vórtices à busca do redemoinho que leve ao mesmo lugar. Quem sabe o universo presto que aproxima cismas e cismos, o palavreado esquecido em dicionários e alfarrábios raros e tardios à inexatidão do querer. No meio de tudo, um único ser. Mistura de perdas e nem porquê. E assim, ao fim de tudo, o solilóquio de querer se ter...

À Cida Moreira
10/02/2015


Calçada vazia e fria à frente, defronte da fronte que gela no rio que corre infante. Frágeis corpos a copularem em lugar nenhum. Na voz que ecoa e voa, ânsia e amor. Um pouco de vestes travestidas de farrapos e trapos, outro tanto de canto e acalanto. Um embriagado a deitar no chão para o sono insone, carente de bocas e beijos, a vomitar na esquina cretina que teima em virar de ponta a cabeça.
Lua carente acima de todos, a virar pequena e se transformar em cheia. O que irá querer essa lua? Irá parar no céu, nas notas de Orfeu? Far-se-á donzela para se entregar ao sol cheio de calor e tesão? Ou será que, calada e performática, somente irá virar semente num alto que todos não conseguimos enxergar? Ninguém saberá o que falar. No fim, há pouco a dizer naquilo que o destino fez e desfez.
Asfalto tátil e negro, abandonado ao seu relento e intento. A dar um bom dia à multidão insensata que passa vadia a correr de uma esquina a outra – trupe louca. Diante do espelho, os pentelhos tornam-se cabelos a voarem sem destino – cretinos e performáticos. No palco, o palhaço vomita de asco pela mulher barbada que vira fada ao tocar do mágico, ser trágico com coelhos e cartolas inertes num lago.
No espaço frágil e ínfimo do infundado quadrado que enterra sonhos e solilóquios, o toque do dedilhar silencioso. Cioso, o mentor põe a fita métrica para mediar e medir a dor. Desesperada, a mãe chama o doutor. A febre alta parece o fim ou um torpor. Lá fora, no aforismo de um cantor, carros são dirigidos por generais. Há um tempo, há gente nas gerais, há qualquer coisa, se nada diante de nós ainda houver... 

A Waly Salomão
01/10/2017


Castelos, vapores, odores, dores, orações de semióticas flores. Canções e poemas a queimarem ardores e amnióticos horrores. Nas blasfêmias efêmeras, as fêmeas a se digladiarem com um ser abstrato e volátil, morto e vivo. Aos eufemismos, as migalhas do mesmo, no mimo...

Ao Arrigo Barnabé
29/03/2016


Loucura no invólucro de que pouca coisa falta. Mais uma lata só. Que dó...


Metrópole que pode ser a acrópole do fim de tudo. Paulistana sanha assanhada do drama. No meio de tudo, no todo, a briga entre o desejo e o ensejo do passado de muito atrás. Rojões ao léu, aos ouvidos do menestrel. Um quarto de hotel desnudo a granel. O amor entre o louco e Jezebel. O mistério se faz misterioso no fel. No mundo paulistano, melhor que ser Gardel.
Sejamos parcimoniosos com os corpos em ossos. Possamos possuir o que a noite nos dá: loucuras, clamídias, canduras. Um tanto de futuro e outro tanto de volátil urro. Brincadeiras e asneiras ao nada. Como diria o poeta, orgasmo total. Como a bola certa de um qualquer sobre o Nadal. Uma rena a fugir do Papai Noel a gritar que está na hora do mais um Natal.
Nos façamos madrugadores de dores e odores. Deixemos de pagar a conta ao garçom que sorri sem dentes como se não tivesse antecedentes. Como quem antes jogou a bandeja na cara de quem não a deseja ver. Ao prato, sabor de veneno. Cantilenas jogadas ao vento e ao ventre. Como o poeta embriagado e largado no imbróglio entre a cena de Sampa e o passado de samba.

A ouvir Jards Macalé
04/12/2018


Panificadora partida entre pães e bolachas, ou biscoitos. Há um forno crepitando maluco e um padeiro meio tarado e meio eunuco a correr entre fumaças e odores, flores despejadas na rua e um cais a borbulhar de ondas os brocados das saias das mulheres a comprarem bolos e sonhos. O tintilar de moedas e voo de notas denota que a tarde chega tardia para a noite que a envolve de luzes e cores. No asfalto, de fato, a fotografia delimita a orgia futura. No caixa, o português dono de tudo, grita entre cifras e cifrões. “Tenho aluguel para pagar, seus sem colhões!” No verbete que vira verbo na porta da padaria, o lembrete de que o tempo não para e quente é melhor de comê-lo. Defronte do prédio, dois moleques que têm na rua o seu lugar chegam para sentir no nariz que a fornada chegou.

À Dolores Duran
01/06/2017


Vida aberta na escuridão do mundo. Coisa de se aninhar sobremaneira no vento que não balança uma folha sequer. No cair de um lusco-fusco vazio e vadio que permeia janelas, esquinas e corpos grudados. Há casais a valsarem, tramas e perfídias enviesadas, canções do mais tardar num amanhecer qualquer. Num cantinho cheio de lugares mil, tem uma orquestra a tocar notas e acordes para o coração acordar. Quem sabe haverá um violão a derrear o primeiro dormir. E mil pingos de chuva, um sol famélico dentro da escuridão, a incerteza certa de que tudo tem início, meio e fim. Um beijo desgarrado de lábios, uma essência que sobrevive à premência de se desgarrar do sim, a eternidade de sofrer na alegria da saudade infinita. No silêncio do relógio centenário, o sacrário de um tempo que derreou. Talvez o badalar inexistente seja a certeza de que tudo nunca irá para a eternidade soar.
-- Garçom, põe de novo aquele disco da Dolores Duran para rodar. Ainda falta muito para chorar...
Solícito e profissional, o homem de branco sujo de sabores e odores volta a agulha no começo. Numa mesa de canto, o primeiro aplauso se desgarra para tantos mais depois e além...

Ao Dominguinhos
19/06/2107


Terra ressecada cheia de pedras e pó. Que dó. Talvez um devaneio sem início, fim ou meio. Um acordeon a traçar sons e notas a denotar. Um pedaço de tempo efêmero, tardia saudade a desbragar. Velejar de portinholas que se fecham e se abrem sem parar. Feito a mulher no tempo, dependurada na janela a somente olhar. Na semente colhida logo longe, lumiar. Um pedaço de acaso, um regurgitar de saudades e passados, um afago sem dor. A sentença de passar um rio pequeno a poder matar e se desmilinguir. No que for, será. Talvez um derrear sem fim, lembrança volátil e efêmera. Talvez o cocô da filha canina recolhido a cada manhã e tarde. Um forró rodeado de chão e o que for. Afinal, há pouca divisória entre a felicidade e a dor. Talvez um pedacinho de tempo que a gente nem sabe o que é. E fica tudo assim: na fé. Um Nordeste sem sul ou leste. Sem centro ou oeste. Apenas Nordeste. Terra minha. Passado meu. Passagem minha. Artimanhas da vida. Caçamba a buscar água vinda da cacimba. Tudo a cheirar lenha e pasto calcinados de tanto brotar. Um descobrir na chuva finita, outro pouco a ver a água verter. Feito feira onde o açude se entrega às poucas folhas que dão saudade que brota igual a semente dormente na iniquidade que o tempo dá. Senão, somente eu, num cantinho onde cabe apenas uma urna que se cobre toda de vida. E haja acórdãos, dias perdidos entre um batucar de teclas e decisões, cisões de ser e estar. Do lado de fora, um Rio de Janeiro brota cheio de meses e reses que se deixaram morrer entre o tanto de pasto e o curral. No cheiro de bosta que permeia as lembranças e a reentrância, essência do odor de vida se aflora em dor. Há um tanto de pequenas capelas cagadas de morcegos e tantas hóstias. Inglórias certezas e desmedidas asperezas. Talvez um tempo esquecido, um frigir de emoções dirimidas. Quem sabe carolas de véus e vestes negras, vestígios de novas esperanças ou murtas entregues aos morcegos que cagam em anjos e santos benzedores. Nos alforjes do cavalo qualquer que segue as estradas sem matagal e fim. Talvez, quem sabe, meu último fim far-se-á simples e em si: o derradeiro suspiro sem encher o peito de ar e o chupim. Na sanfona, Dominguinhos solta o fole sem dizer que ele, no fundo, sou eu... 

Tempo para o Ofertório
(A Caetano, Moreno, Zeca e Tom)


Tempo, extravagância esotérica e etérea das lembranças que vêm e voltam num redemoinho tracejado de lágrimas e saudade. Efemérides da sentença infinita de saber-se finito e mortal no cadafalso em que andamos a pisar em falso nas noites que se escondem entre faróis e postes cheios de insetos. Nas mesas dos bares, sonhos eretos. Nos rostos entre desatinos e destinos, os verbos cremos e rimos. Nas rimas tresloucadas e cansadas, carícias e desatinos em istmos.
Tempo, fresta entre o nascer e morrer, interregno desprovido de futura vida, pausa entre o nada de antes e o nada de depois. Atávico, dramático, bisonho, feito tordilho a correr entre as paragens da alegria e da fantasia, inóspitas àqueles que desdenham o correr de horas e minutos como fossem todos segundos ásperos e plenos. Tudo na plenitude que, quem sabe um dia, saberemos descobrir e curtir. Ao longe, a longitude entre o começar e derrear sem um final.
Tempo, transparente e ausente, intermitente, em inglórias glórias vociferasses que não sabem onde desaguar. Talvez um deserto infértil e voraz, ou uma margem fértil de vidas e versos. Uma alegoria presta de ser, um amor transverso de ter, um desigual findar de urdir. No meio de tudo, atemporal, um tanto de chuvas e ventos que se achegam e se aconchegam no derradeiro temporal. Senão, talvez uma sequência de andores e dores, procissão inconsequente sobre o asfalto quente que queima mil corações e cala as canções que teimam em acreditar que o tempo não far-se-á findar. 

À Júlia Vargas
12/09/2017


Brincadeiras de sons, onomatopeias de soluções e solidões. Lamentos vis e febris. À voz, o algoz. Vilarejos benfazejos e anjos arcados e praguejos. Sertanejos de marés e viés. À lucidez, mil barnabés. Ao que puder vir, que seja o que vier. Maracatus, sons de Nordeste, vida em presto e vazia de si mesma, à crisma nunca feita. Talvez um desejo de morte, à sorte ditada. Um beijo de língua, à mingua, a se esvair nas ondas pequenas que batem do lado da cama que dorme ao fado primeiro. Ao fastio que se denota em si, a foda redescoberta na madrugada insone que levanta sons e poeiras. Candeeiros que iluminam seu próprio destino de morrer ao fim do querosene. No limite entre a lucidez e o improvável, o calado e insone poeta se faz blasfêmia e essência. Na cadência do som, a essência de querer pouco virar. Entre o começo e o fim, há um pedaço de ar a se respirar...

À Anavitória
11/08/2017

Balada quase acamada, dessas que a cama sai a rodar de um canto a outro do quarto. Coisa de passado na passagem que existe entre esquecer e ser. Revivida saudade que o tempo para de passear. Cancioneiro descoberto entre lençóis e cobertas. Beijos calcinados no calor da paixão, invasão de métricas tétricas e rimas sem saber, a ver. Coisa de malfadadas poesias que parecem azias de fim de madrugada. Versos como amplexos. Corpos entrecortando sexos.
Balada dispersa daqui até a Pérsia. Ultimato que vai da pele ao olfato. Besteiras entrecortadas de golfadas vazias entre a língua e a cisma. Coisa de se lamber, suar, sentir, reter, largar, lembrar, reter. Se possível, um dia esquecer. Senão, querer apenas não ser. No céu, uma lua que se desmancha de esmiuçar um brilhar derradeiro do fim. Cadenciado, o coração reverbera pétalas de rosas e gérberas. Planaltos e planícies estão logo ali, no derradeiro e brejeiro fim.
Balada cravada no renascer da sempre desigual sina. Logo ali, defronte, uma esquina. Um canto cansado e finito, bebidas sobre a mesa onde um pé parece menor do que os outros três. Cambaleante, na toalha perdida entre tantos ou outros poemas nunca feitos ou descritos, o poeta profetiza ser comível na verdade das canções infindas. Ao fim de tudo, no curvilíneo abstrato crer, um pouco ou nenhum gemer. Entre quase nada e pouco, só resta viver.

Ao Renato Teixeira
28/11/2016


Violeiro que toca e dedilha o violão, dá à tua mão um tanto de viola e canção. Canta à voz que partiu o trinar do tiziu, se este houver. Brinca de tempo parado, de gesto largado, de andar pela estrada entre curvas e estradas. Fosse no asfalto da cidade, esquina haveria e faróis forrariam passos e arrancadas do coração num piscar sem parar. O lugar? O que há de ser lugar ou largar?
Por isso o violeiro rasga os dedos nas cordas de aço e traz sensações e canções. Alguém, num dado desandar, saberá tais caminhos traçar.
Moça que se entrega aos insondáveis desejos do amante dissonante da vida deixa que a inverdade se invada de histórias e histriônicas saudades. Não deixe que o sono vire sonoridade desperta e dispersa. Durma com a certeza de que amor maior não há. E se Deus existir, feito igual ele nada terá feito ou fará. Mesmo com certezas de um terço que a beata reza sem olhar. Na luz do lampião, o candeeiro saberá iluminar. Deitada na sua cama azul, arreganhada, Nina vê o tempo canino a discorrer, voar e nunca chegar.

À Baby Consuelo, do Brasil
21/08/2015


Doidos, doidivanas, dramáticos e lúgubres à vida a se largarem naquilo que ainda se pode ter. No sonho depravado e calado, destravado e cavado em cada centímetro de unicidade e separação. Entre um tempo bom e o bom que já foi atemporal. Nas ladeiras de Salvador e do Rio, de Olinda, ou seja, lá onde for. A subir e descer, vociferar gritos de lucidez maluca e inverdade impoluta. Feito um baby, na voz da Baby, que é do Brasil e o sempre foi e será a se desgarrar da realidade inexata cheia de acordes e alforjes que um cavalo trôpego e trêbado carrega sem nunca chegar.
Sempre viva, a mudar sua vida, vai a caminhar entre nuvens e estrelas ou estradas a brilhar. Lá vai Baby, a caminhar e descaminhar, flutuar. Canções mil, milímetros retintos de notas e prosas, prosaicas falácias de saudade. Extintos prazeres e afazeres que o cheiro de creolina e o drama inexato da rima saudaram. Nas esquinas desatinadas de um Leblon quaisquer, crescem notas e rimas feito doses dadas em colher. E seja o que o destino quiser. Como uma ladeira brasileira e altaneira. Transversa, inversa, misteriosa e a cantar a música derradeira.

À Lígia do Tom
07/04/2016


Fumaça enternecida e quase esquecida. A Lígia do Tom eu vi, face to face. Num cursinho do Méier. Ao lado da primeira amada, meio índia como a Lígia do Tom. E não é que depois consegui ser jornalista. Num misterioso qualquer após e em diarreia que só saberei depois de morrer. Ou não. Hoje, à Lígia do Tom, fumo, bebo, revejo e viajo no tempo. Ainda bem que esse ainda há!